domingo, 22 de fevereiro de 2026

A FORMAÇÃO ANTROPONÍMICA DA PENÍNSULA IBÉRICA: PROCESSOS HISTÓRICOS, LINGUÍSTICOS E CULTURAIS NA ORIGEM DOS SOBRENOMES







RESUMO



O presente artigo analisa a formação antroponímica da Península Ibérica a partir de uma perspectiva histórica, linguística e cultural, considerando os processos de ocupação e miscigenação que moldaram a constituição dos sobrenomes portugueses e espanhóis. Com base em estudos onomásticos e historiográficos, investiga-se a contribuição de povos ibero-celtas, romanos, germânicos, muçulmanos e judeus sefarditas na consolidação do sistema nominativo hereditário. Argumenta-se que os sobrenomes ibéricos constituem registros históricos vivos, refletindo transformações sociais, religiosas e políticas desde a Antiguidade até a expansão ultramarina.

Palavras-chave: Antroponímia. Onomástica. Península Ibérica. História Medieval. Sobrenomes.



1 INTRODUÇÃO


A antroponímia, ramo da onomástica dedicado ao estudo dos nomes próprios de pessoas, constitui importante instrumento para a compreensão das dinâmicas históricas e culturais de uma sociedade.

No caso da Península Ibérica, a formação dos sobrenomes está diretamente associada aos processos de conquista, colonização, reorganização política e imposição religiosa que marcaram a região ao longo de mais de dois mil anos.

Segundo Machado (2003), os sobrenomes portugueses resultam de um processo gradual de fixação ocorrido entre os séculos XII e XV, quando os nomes patronímicos, toponímicos e ocupacionais passaram a ser transmitidos hereditariamente. Esse processo, contudo, possui raízes muito anteriores, remontando às matrizes culturais pré-romanas e à posterior romanização.

Dessa forma, compreender a origem dos sobrenomes ibéricos implica reconstruir uma linha do tempo histórica que integra linguística, política e religião.



2 MATRIZES PRÉ-ROMANAS: IDENTIDADE E TERRITÓRIO (até 218 a.C.)


Antes da conquista romana, a Península era habitada por iberos, celtas e lusitanos. Essas populações organizavam-se em estruturas tribais e utilizavam nomes individuais, frequentemente associados a atributos físicos, qualidades guerreiras ou vínculos territoriais.

De acordo com Saraiva (2007), a identidade pré-romana estava fortemente ligada ao espaço geográfico e à organização clânica. Essa ligação territorial explica a permanência de raízes toponímicas que posteriormente se fixariam como sobrenomes, como:

Silva (floresta)

Castro (fortificação)

Lima (rio)

Rocha

Costa

Esses nomes, embora consolidados apenas na Idade Média, possuem substrato linguístico anterior à romanização.


3 A ROMANIZAÇÃO E A ESTRUTURA NOMINAL LATINA (218 a.C. – século V)


A incorporação da Península ao Império Romano introduziu o sistema nominal tripartido (praenomen, nomen e cognomen). A romanização consolidou o latim vulgar como base linguística das futuras línguas ibéricas.

Machado (2003) destaca que muitos sobrenomes portugueses derivam de cognomina latinos ou de adaptações medievais desses nomes. Exemplos incluem:

Martins (derivado de Martius, ligado a Marte)

Pereira (associado à árvore pereira)

Ferreira (relacionado ao ferro e à atividade metalúrgica)

A romanização não apenas transformou a língua, mas também institucionalizou registros administrativos e eclesiásticos que favoreceram a posterior fixação dos sobrenomes.


4 OS POVOS GERMÂNICOS E O SISTEMA PATRONÍMICO (séculos V–VIII)


Com a queda de Roma, instalaram-se na Península povos germânicos, como suevos e visigodos, culminando na formação do Reino Visigótico.

Segundo Saraiva (2007), os visigodos mantiveram estruturas administrativas romanas, mas introduziram nomes germânicos que posteriormente foram latinizados. A principal contribuição foi o fortalecimento do modelo patronímico, caracterizado pelos sufixos:

-es (Portugal)

-ez (Espanha)

-iz

Esses sufixos indicam filiação, significando “filho de”. Exemplos:

Fernandes (filho de Fernando)

Gonçalves (filho de Gonçalo)

Henriques (filho de Henrique)

Nunes (filho de Nuno)

Esse modelo tornou-se dominante durante a Idade Média e permanece estruturante na onomástica ibérica.


5 AL-ANDALUS E A INFLUÊNCIA ISLÂMICA (711–1492)


A invasão muçulmana de 711 estabeleceu o território denominado Al-Andalus. Durante séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram sob diferentes regimes políticos.

A influência árabe na língua portuguesa é amplamente reconhecida. Conforme Tavani (1990), o contato linguístico favoreceu a incorporação de vocábulos e estruturas fonéticas árabes.

Na antroponímia, destacam-se:

Prefixo “Al-” (artigo definido árabe), como em Almeida e Albuquerque

Nomes ligados a profissões, como Haddad (ferreiro)

Topônimos como Medina

A presença islâmica contribuiu para a diversidade nominativa e cultural da região.


6 A RECONQUISTA E A FIXAÇÃO HEREDITÁRIA DOS SOBRENOMES (séculos VIII–XV)


A Reconquista Cristã consolidou os reinos ibéricos, entre eles o Reino de Portugal.

Nesse período, segundo Machado (2003), ocorre a fixação hereditária dos sobrenomes, inicialmente entre a nobreza e, gradualmente, entre camadas populares. A Igreja Católica desempenhou papel decisivo ao exigir registros batismais e matrimoniais, fortalecendo a estabilidade nominativa.

Sobrenomes tornaram-se instrumentos jurídicos, fiscais e sociais.


7 JUDEUS SEFARDITAS E CONVERSÕES FORÇADAS (séculos XV–XVI)


Com a instituição da Inquisição Espanhola em 1478, muitos judeus sefarditas converteram-se ao cristianismo.

Wolff e Wolff (1988) explicam que, nesse contexto, judeus convertidos (cristãos-novos) adotaram sobrenomes associados à natureza e localidades para evitar perseguições. Exemplos incluem:

Oliveira

Carvalho

Cardoso

Pinheiro

Leão

Toledo

Esses sobrenomes foram posteriormente levados às colônias americanas.


8 EXPANSÃO ULTRAMARINA E TRANSPLANTE ANTROPONÍMICO (séculos XVI–XVIII)


A expansão marítima portuguesa difundiu os sobrenomes ibéricos para África, Ásia e América. No Brasil colonial, a estrutura patronímica e toponímica foi mantida, mas passou a conviver com nomes indígenas e africanos.

Esse encontro gerou novos processos de miscigenação nominativa, ampliando o alcance histórico da antroponímia ibérica.


9 CONSIDERAÇÕES FINAIS


A formação antroponímica da Península Ibérica é resultado de um processo cumulativo, no qual cada período histórico deixou marcas estruturais nos sobrenomes atuais. Da herança territorial pré-romana à romanização, das contribuições germânicas à influência islâmica e judaica, observa-se uma construção identitária plural.

Os sobrenomes ibéricos constituem, portanto, arquivos históricos vivos, revelando camadas sucessivas de identidade, poder e adaptação cultural.



10 REFLEXÃO DO AUTOR: IDENTIDADE COMO TRAVESSIA HISTÓRICA


Ao concluir esta análise sobre a formação antroponímica da Península Ibérica, compreende-se que o estudo dos sobrenomes não se limita à investigação etimológica ou histórica. Trata-se também de uma reflexão sobre identidade e memória.

Carrego em meu nome os sobrenomes Nunes e Oliveira. O primeiro, de natureza patronímica, consolidou-se durante o período do Reino Visigótico, quando os sufixos "-es" passaram a indicar filiação, significando “filho de”. O segundo, de origem toponímica e ligado à árvore mediterrânica da oliveira, possui raízes latinas estruturadas no contexto do Império Romano e foi amplamente difundido na sociedade ibérica medieval, inclusive durante o período da Inquisição Espanhola, quando muitos cristãos-novos adotaram sobrenomes associados à natureza.

Entretanto, minha identidade primeira é indígena, pertencente ao povo Kariri-Xocó. Essa ancestralidade antecede a colonização europeia e representa uma memória histórica originária do território brasileiro.

A coexistência desses elementos não constitui contradição, mas sobreposição histórica. O Brasil formou-se a partir de encontros complexos entre povos indígenas, europeus e africanos. Os sobrenomes ibéricos chegaram como parte de uma estrutura administrativa e religiosa colonial, mas foram ressignificados ao longo do tempo em uma sociedade marcada por resistência cultural e permanência identitária.

Assim, o nome torna-se um arquivo histórico vivo. Ele narra deslocamentos, imposições, adaptações e permanências. Contudo, a identidade transcende o registro nominal. O estudo da antroponímia ibérica, portanto, não é apenas uma investigação histórica, mas também uma oportunidade de compreender como as camadas do passado continuam presentes na constituição do sujeito contemporâneo.



REFERÊNCIAS



FAURE, Sabina; RIBEIRO, José Pedro. Dicionário de Sobrenomes Portugueses. Lisboa: Editorial Presença, 2007.


MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 3. ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2003. 3 v.


SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. 25. ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 2007.


TAVANI, Giuseppe. A Poesia Lírica Galego-Portuguesa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1990.


WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. A Odisséia dos Judeus de Portugal. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Judaicos, 1988.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó 



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