RESUMO
Este artigo analisa a influência cultural, social, religiosa e econômica das regiões do Norte de Portugal — especialmente Minho, Trás-os-Montes e Beira — na formação da Capitania de Pernambuco entre os séculos XVI e XVIII, incluindo o território que posteriormente formaria o estado de Alagoas. Examina-se a formação histórica do Norte português desde os povos celtas até a consolidação do Reino de Portugal, e sua projeção cultural na América portuguesa. Conclui-se que a matriz rural, católica e senhorial do Norte português foi elemento estruturante da sociedade colonial nordestina.
Palavras-chave: Colonização portuguesa; Norte de Portugal; Pernambuco colonial; Alagoas; Cultura luso-brasileira.
1 INTRODUÇÃO
A colonização do Brasil foi organizada pela Coroa portuguesa por meio do sistema de capitanias hereditárias, implantado em 1534. Conforme observa Prado Júnior (2000, p. 34), tratava-se de um modelo voltado à exploração econômica, estruturado “em grandes unidades territoriais entregues a particulares com amplos poderes administrativos”.
A Capitania de Pernambuco destacou-se como um dos principais centros da economia açucareira. Segundo Freyre (2003, p. 79), “foi em Pernambuco que se consolidou o modelo clássico do engenho patriarcal”.
Até 1817, o atual estado de Alagoas integrava essa capitania, estando Porto Real do Colégio sob jurisdição da Vila de Penedo, importante núcleo administrativo do Baixo São Francisco.
2 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO NORTE DE PORTUGAL
A cultura do Norte português formou-se por camadas históricas sucessivas.
2.1 Herança celta e romanização
Antes da dominação romana, povos célticos ocupavam o noroeste da Península Ibérica. Posteriormente, a romanização introduziu estruturas administrativas e jurídicas duradouras.
Holanda (1995, p. 21) afirma que a herança ibérica carrega “fortes marcas da tradição municipal romana”, elemento que influenciaria a organização das vilas no Brasil colonial.
2.2 Cristianização medieval
Com o domínio visigótico e a consolidação do cristianismo, estruturou-se uma sociedade rural fortemente marcada pela religião.
Segundo Mattoso (1995, p. 112), a formação do Reino de Portugal consolidou “uma sociedade de base senhorial e profundamente cristã”, característica que marcaria o expansionismo ultramarino.
2.3 Sociedade rural e patriarcal
Raymundo Faoro (2001, p. 53) destaca que a estrutura política portuguesa baseava-se na autoridade senhorial e na concentração fundiária, modelo que seria transplantado para o Brasil.
Essa matriz rural do Norte português foi fundamental na formação da sociedade açucareira pernambucana.
3 TRANSFERÊNCIA CULTURAL PARA PERNAMBUCO E ALAGOAS
3.1 Estrutura agrária e economia açucareira
A economia colonial nordestina organizou-se em grandes propriedades monocultoras.
Freyre (2003, p. 85) descreve o engenho como:
“um complexo econômico e social que reunia casa-grande, senzala, capela e lavoura, sob a autoridade patriarcal do senhor.”
Esse modelo apresenta paralelos com a estrutura rural do Norte português medieval.
3.2 Religiosidade
A religiosidade católica estruturava a vida comunitária.
Holanda (1995, p. 95) observa que a sociedade luso-brasileira manteve “uma religiosidade de caráter doméstico e familiar”, marcada por devoções a santos e práticas populares.
As festas de padroeiro, procissões e irmandades religiosas reproduziam padrões tradicionais portugueses.
3.3 Cultura e tradições
Joel Serrão (1985) destaca que o Norte português preservava forte tradição oral e comunitária, elemento que encontrou eco na formação cultural nordestina.
No Brasil, tais tradições fundiram-se com elementos indígenas e africanos, formando uma síntese cultural singular.
3.4 Introdução de animais domésticos
A colonização implicou a introdução de espécies europeias adaptadas à realidade colonial.
Prado Júnior (2000, p. 42) observa que a pecuária foi essencial para a expansão territorial, permitindo a ocupação do sertão nordestino.
Entre os animais introduzidos destacam-se:
Bovinos ibéricos
Cavalos ibéricos
Suínos
Caprinos
Ovinos
Aves domésticas
Essas espécies foram fundamentais para a economia açucareira e para a interiorização da colonização.
4 ALAGOAS NO CONTEXTO PERNAMBUCANO
O território alagoano permaneceu subordinado à Capitania de Pernambuco até 1817.
Segundo registros históricos, sua emancipação ocorreu no contexto da Revolução Pernambucana, quando a região adquiriu autonomia administrativa.
Assim, a formação cultural de Alagoas está diretamente ligada à matriz implantada em Pernambuco desde o século XVI.
5 CONCLUSÃO
A análise histórica demonstra que a sociedade colonial pernambucana — e, por consequência, alagoana — foi profundamente marcada pela cultura do Norte de Portugal.
A estrutura rural, patriarcal e católica dessa região, moldada por influências célticas, romanas e medievais, foi transplantada para o Brasil e adaptada ao contexto tropical.
No encontro com povos indígenas e africanos, essa matriz transformou-se, dando origem à identidade cultural nordestina, sem perder suas raízes luso-nortenhas.
REFERÊNCIAS
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2001.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 48. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal (1096–1325). Lisboa: Editorial Estampa, 1995.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.
SERRÃO, Joel (org.). Dicionário de História de Portugal. Porto: Figueirinhas, 1985.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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