sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

BURUHÚ IDZEBAE – ARTE ELETRÔNICA






Dizem os mais velhos que antes mesmo do Uché Caraí — o Tempo do Homem Branco — a Idzebae Antse já riscava o Aranke, céu.


A eletricidade natural não nasceu dos fios.

Ela nasceu do relâmpago.


Nas Arankedzoá, as nuvens dançavam pesadas sobre o mundo recém-criado. Quando o céu rasgava em clarão, os Uanieá, indígenas, sabiam: era o Radda, mundo, respirando luz. Aquele brilho atravessava o medo e iluminava o escuro das noites antigas. Era o primeiro anúncio de que a energia sempre esteve ali, pulsando entre o céu e a terra.


O tempo passou.

Veio o Uché Caraí, tempo do homem branco.

E com ele, outra luz — a Hinebakró, luz elétrica. Não mais caída do céu em trovão, mas conduzida por fios invisíveis que entraram na Natiá. A aldeia acendeu lâmpadas, e as sombras começaram a contar novas histórias.


Logo chegaram os Hineidzebae, eletrônicos.

Primeiro o Warudókli, televisor que trazia imagens de mundos distantes dentro de uma caixa brilhante. Depois o Pohiesawa, câmera de vídeo que capturava memórias. O Cramycá Samyonhé, gravador guardava vozes. O Craiwonpiwon, CD Player e o Craiwopewa,  DVD Player cantavam músicas redondas. A Cramenunhí, geladeira conservava o alimento. O Crametekié, computador abriu portas para universos invisíveis.


E então surgiu a Nikiékliwahi — inteligência que parecia pensar.


Alguns estranharam. Outros temeram.

Mas os jovens observaram com olhos atentos.


Foi quando a ONG Thydêwá chegou trazendo algo diferente: não apenas máquinas, mas propósito.

Nascia o Projeto AEI — Arte Eletrônica Indígena.


Entre os Kariri-Xocó, o nome ganhou outro espírito:

BHU — Buruhú, Hineidzebae, Uanie.

Arte. Eletrônica. Indígena.


Não era tecnologia contra tradição.

Era tradição atravessando a tecnologia.

Nas aldeias Kariri-Xocó e Karapotó, em Alagoas; Pankararú, em Pernambuco; Xokó, em Sergipe; Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Pataxó, na Bahia, algo começou a despertar.


O Pité Mydzé — Rede de Pescar — virou pulsação digital.


O Niú Bydimerakró — Raiz do Chip — gravou o som do maracá, transformando o eco ancestral em onda sonora que viajava pelo mundo.


O Hé Neieta — Árvore dos Desejos — ensinou que o que vem da natureza também pode florescer na tela.

E entre os Kariri-Xocó ecoou a frase que atravessava os cabos invisíveis:

Su Pidéá Netçónu — Eles estão escutando.


Os jovens perceberam que a arte do povo não precisava ficar presa à memória do vento. Ela podia correr pelos fios, viajar pelos satélites, atravessar oceanos digitais.


O relâmpago que antes iluminava as nuvens agora brilhava nas telas.

Mas sua origem continuava a mesma.

A Idzebae Antse nunca deixou o Aranke.

Apenas encontrou novos caminhos para descer até a terra.


E assim, entre trovões antigos e cliques modernos, o povo seguiu criando.

Porque o Buruhú não depende do tempo.

Ele apenas se transforma.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó



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