Dizem os mais velhos que antes mesmo do Uché Caraí — o Tempo do Homem Branco — a Idzebae Antse já riscava o Aranke, céu.
A eletricidade natural não nasceu dos fios.
Ela nasceu do relâmpago.
Nas Arankedzoá, as nuvens dançavam pesadas sobre o mundo recém-criado. Quando o céu rasgava em clarão, os Uanieá, indígenas, sabiam: era o Radda, mundo, respirando luz. Aquele brilho atravessava o medo e iluminava o escuro das noites antigas. Era o primeiro anúncio de que a energia sempre esteve ali, pulsando entre o céu e a terra.
O tempo passou.
Veio o Uché Caraí, tempo do homem branco.
E com ele, outra luz — a Hinebakró, luz elétrica. Não mais caída do céu em trovão, mas conduzida por fios invisíveis que entraram na Natiá. A aldeia acendeu lâmpadas, e as sombras começaram a contar novas histórias.
Logo chegaram os Hineidzebae, eletrônicos.
Primeiro o Warudókli, televisor que trazia imagens de mundos distantes dentro de uma caixa brilhante. Depois o Pohiesawa, câmera de vídeo que capturava memórias. O Cramycá Samyonhé, gravador guardava vozes. O Craiwonpiwon, CD Player e o Craiwopewa, DVD Player cantavam músicas redondas. A Cramenunhí, geladeira conservava o alimento. O Crametekié, computador abriu portas para universos invisíveis.
E então surgiu a Nikiékliwahi — inteligência que parecia pensar.
Alguns estranharam. Outros temeram.
Mas os jovens observaram com olhos atentos.
Foi quando a ONG Thydêwá chegou trazendo algo diferente: não apenas máquinas, mas propósito.
Nascia o Projeto AEI — Arte Eletrônica Indígena.
Entre os Kariri-Xocó, o nome ganhou outro espírito:
BHU — Buruhú, Hineidzebae, Uanie.
Arte. Eletrônica. Indígena.
Não era tecnologia contra tradição.
Era tradição atravessando a tecnologia.
Nas aldeias Kariri-Xocó e Karapotó, em Alagoas; Pankararú, em Pernambuco; Xokó, em Sergipe; Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Pataxó, na Bahia, algo começou a despertar.
O Pité Mydzé — Rede de Pescar — virou pulsação digital.
O Niú Bydimerakró — Raiz do Chip — gravou o som do maracá, transformando o eco ancestral em onda sonora que viajava pelo mundo.
O Hé Neieta — Árvore dos Desejos — ensinou que o que vem da natureza também pode florescer na tela.
E entre os Kariri-Xocó ecoou a frase que atravessava os cabos invisíveis:
Su Pidéá Netçónu — Eles estão escutando.
Os jovens perceberam que a arte do povo não precisava ficar presa à memória do vento. Ela podia correr pelos fios, viajar pelos satélites, atravessar oceanos digitais.
O relâmpago que antes iluminava as nuvens agora brilhava nas telas.
Mas sua origem continuava a mesma.
A Idzebae Antse nunca deixou o Aranke.
Apenas encontrou novos caminhos para descer até a terra.
E assim, entre trovões antigos e cliques modernos, o povo seguiu criando.
Porque o Buruhú não depende do tempo.
Ele apenas se transforma.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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