sábado, 14 de fevereiro de 2026

TOKLIDDAYSÃ UANIEÁ, CELULARES INDÍGENAS






Na Woderáehó Uanieá “Rua dos Índios”, quando o vento ainda soprava histórias nas portas de madeira e as crianças corriam livres entre as casas simples, o mundo era outro.


Ali, na Atseuróché “Geração X”, o som que atravessava o tempo vinha do Benheokli — o “Telefone de disco, analógico”. Cada número girado parecia um pequeno ritual. O clique giratório era como um maracá mecânico chamando vozes distantes.

O Benheokli não era apenas um aparelho. Era ponte. Era espera. Era saudade que se escutava no fio.


Mas o tempo corre como o Opará, e as gerações mudam como as margens do rio.

Quando o povo já morava na Wanheré Uanhí “Fazenda Sementeira”, surgiu o Tokliddaysã — o “Telefone Celular”. Era a Atseuróché “Geração Y / Millennials”. O mundo já cabia na palma da mão. As mensagens viajavam invisíveis pelo ar, como espíritos leves cruzando o céu.


O que antes precisava de fio, agora voava.

E então, na Atseuróché “Geração Z”, algo ainda mais bonito floresceu.


No ano de 2009, a Thydêwá, formada por indígenas de diferentes etnias aliados a não indígenas, idealizou um projeto que unia tradição e tecnologia: Tokliddaysã Uanieá — “Celulares Indígenas”.


O objetivo não era apenas usar o aparelho.

Era contar histórias.

Era registrar memórias.

Era fortalecer identidades.

Nascia ali uma nova forma de oralidade: a imagem em movimento feita pela própria aldeia.


Sessenta indígenas foram formados na produção de celumetragens — curtas-metragens gravados pelo Tokliddaysã. Cada vídeo era uma flecha digital lançada ao mundo.


E tudo se conectava à Pité Uanieá Piteiatekié — “Rede Índios On-Line”, que expandia saberes pelo Brasil afora e criava presença no território virtual.


Assim surgiu também o canal Índios On-Line no YouTube, onde a palavra indígena ganhou tela, voz e autonomia.

A Aldeia Kariri-Xocó participou desse movimento com orgulho.


Os jovens Nhenety e Ayrá foram contemplados. Receberam seus Tokliddaysã como instrumentos de memória e futuro.


Outros parentes também caminharam juntos nesse projeto:

os Tupinambá,

os Pankararú,

os Pataxó-Hãhãhãe

e os Pataxó.


Não era apenas tecnologia.

Era retomada.


Se antes o Benheokli levava a voz pelo fio,

agora o Tokliddaysã levava a identidade pelo mundo.


A língua Kariri-Xocó, revitalizada, ganhou nova morada:

a tela iluminada.


O que era invisível passou a ser visto.

O que era silenciado passou a narrar.

O que era memória tornou-se arquivo vivo.


E assim, entre o som giratório do disco antigo

e o toque suave da tela sensível,

o povo Kariri-Xocó segue escrevendo sua história —

agora também em pixels.

Porque tradição não é passado.

É raiz que aprende a florescer em qualquer tempo.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó 




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