Na Woderáehó Uanieá “Rua dos Índios”, quando o vento ainda soprava histórias nas portas de madeira e as crianças corriam livres entre as casas simples, o mundo era outro.
Ali, na Atseuróché “Geração X”, o som que atravessava o tempo vinha do Benheokli — o “Telefone de disco, analógico”. Cada número girado parecia um pequeno ritual. O clique giratório era como um maracá mecânico chamando vozes distantes.
O Benheokli não era apenas um aparelho. Era ponte. Era espera. Era saudade que se escutava no fio.
Mas o tempo corre como o Opará, e as gerações mudam como as margens do rio.
Quando o povo já morava na Wanheré Uanhí “Fazenda Sementeira”, surgiu o Tokliddaysã — o “Telefone Celular”. Era a Atseuróché “Geração Y / Millennials”. O mundo já cabia na palma da mão. As mensagens viajavam invisíveis pelo ar, como espíritos leves cruzando o céu.
O que antes precisava de fio, agora voava.
E então, na Atseuróché “Geração Z”, algo ainda mais bonito floresceu.
No ano de 2009, a Thydêwá, formada por indígenas de diferentes etnias aliados a não indígenas, idealizou um projeto que unia tradição e tecnologia: Tokliddaysã Uanieá — “Celulares Indígenas”.
O objetivo não era apenas usar o aparelho.
Era contar histórias.
Era registrar memórias.
Era fortalecer identidades.
Nascia ali uma nova forma de oralidade: a imagem em movimento feita pela própria aldeia.
Sessenta indígenas foram formados na produção de celumetragens — curtas-metragens gravados pelo Tokliddaysã. Cada vídeo era uma flecha digital lançada ao mundo.
E tudo se conectava à Pité Uanieá Piteiatekié — “Rede Índios On-Line”, que expandia saberes pelo Brasil afora e criava presença no território virtual.
Assim surgiu também o canal Índios On-Line no YouTube, onde a palavra indígena ganhou tela, voz e autonomia.
A Aldeia Kariri-Xocó participou desse movimento com orgulho.
Os jovens Nhenety e Ayrá foram contemplados. Receberam seus Tokliddaysã como instrumentos de memória e futuro.
Outros parentes também caminharam juntos nesse projeto:
os Tupinambá,
os Pankararú,
os Pataxó-Hãhãhãe
e os Pataxó.
Não era apenas tecnologia.
Era retomada.
Se antes o Benheokli levava a voz pelo fio,
agora o Tokliddaysã levava a identidade pelo mundo.
A língua Kariri-Xocó, revitalizada, ganhou nova morada:
a tela iluminada.
O que era invisível passou a ser visto.
O que era silenciado passou a narrar.
O que era memória tornou-se arquivo vivo.
E assim, entre o som giratório do disco antigo
e o toque suave da tela sensível,
o povo Kariri-Xocó segue escrevendo sua história —
agora também em pixels.
Porque tradição não é passado.
É raiz que aprende a florescer em qualquer tempo.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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