Conto inspirado em memórias de Porto Real do Colégio
Naquele tempo em que a Iuwó Merata, a Estrada de Ferro, cortava a terra de Porto Real do Colégio como um risco firme no mapa do destino, o lado leste da cidade ganhou também um outro sinal de progresso: o Merá Yeemerãkié, o Campo de Aviação.
Era um campo largo, de chão batido e horizonte aberto, feito para receber Yeemerãkié — aviões bimotores pequenos, barulhentos, que chegavam como aves metálicas vindas de longe. Ali pousavam os Dubonaté, técnicos e mestres de obras, homens de fala apressada e olhar atento, e às vezes também os Nanheá, autoridades do governo, que vinham observar, mandar e partir.
Não havia asfalto, nem marcas pintadas no chão. O que mandava ali era o vento. No centro do campo erguia-se o Crupuhami, a biruta: um pano preso a uma vara alta, que dançava ao sopro invisível do ar e ensinava aos pilotos o caminho seguro da descida. Para nós, crianças e curiosos, aquele pano era um sinal mágico — quando se movia, algo estava para acontecer.
E acontecia.
Quando um Yeemerãkié surgia no céu, dando voltas lentas como quem escolhe o lugar exato para tocar a terra, a notícia corria mais rápida que o vento. Nós largávamos tudo: a conversa, a brincadeira, o descanso. Corríamos em bando até o campo, mantendo distância, mas com os olhos arregalados e o coração acelerado. O ronco dos motores fazia o chão vibrar e parecia anunciar que o mundo lá de fora estava nos visitando.
O campo não era só terra plana; era portal. Ali pousavam novidades, ideias, promessas de mudança. Mas o tempo, como sempre, não pousa — ele passa.
Quando começou a construção da Iuwóiró, a rodovia de asfalto, estrada preta que riscou o chão com outra lógica, o Merá Yeemerãkié começou a encolher. Um pedaço aqui, outro ali, até que o silêncio foi tomando o lugar do ronco dos motores. Depois veio a Uocró Idabacrú, a ponte sobre o rio, e com ela o fim definitivo do campo.
No início da década de 1970, o Merá Yeemerãkié já não recebia mais aviões. Restou a terra, a memória e o vento — que ainda sopra, mesmo sem biruta para indicar seu caminho.
E quem viveu aquele tempo sabe: houve um dia em que o céu descia até o chão de Porto Real do Colégio, e nós corríamos para ver.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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