quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

NATÉIBÁ ITOIBÁPOIETE, MOTORISTA DE AUTOMÓVEL DE PASSAGEIROS






Quando o sol ainda se espreguiçava por cima do Opará, já se ouvia o ronco discreto do Ibápohduá cortando a estrada de barro batido. Era assim todos os dias. O Namytse, o Serviço de Passageiros, começava cedo entre a Aldeia Kariri-Xocó e a cidade de Porto Real do Colégio, seguindo até Propriá, em Sergipe, levando gente, histórias e sonhos apertados no banco traseiro.


Natéibá Itoibápoiete, motorista de automóvel segurava o volante com firmeza e respeito. Não era apenas um motorista: era conhecedor dos caminhos, das curvas da estrada e das necessidades do povo. Sabia quem ia para vender, quem ia para consultar médico, quem ia apenas visitar parente distante. Cada passageiro carregava um motivo, e ele carregava todos.


Na aldeia havia outros como ele — homens e mulheres que transformaram o automóvel e a Ibáchiddá, a topic ou van, em instrumento de sobrevivência. Na cidade também havia transporte, mas quando o carro saía direto da Aldeia Kariri-Xocó para Propriá, o valor mudava. Custava Yeendéar, dez reais, dez tayu, a nota onde a arara vermelha parecia observar tudo com olhos atentos, como guardiã do trajeto.


Alguns preferiam o caminho das águas. As Ubauipú Itohiquiete, lanchas dos viajantes, deslizavam pelo rio por um preço menor, três reais apenas. Mas nem sempre o rio estava manso, e nem todos confiavam nele. A estrada, apesar de poeira e buracos, também contava suas histórias.


Enquanto dirigia, Natéibá, motorista pensava no quanto o tempo havia mudado. Antes, poucas opções. Agora, novos meios, novas profissões. O volante nas mãos indígenas era mais do que trabalho: era autonomia, era futuro, era comida na mesa e dignidade dentro de casa.


Quando o carro parava e os passageiros desciam, ficava no ar um silêncio breve, quebrado apenas pelo vento e pelo canto distante de um pássaro. Natéibá desligava o motor, respirava fundo e sorria. Sabia que no dia seguinte estaria ali de novo, ligando o Ibápohduá, conduzindo pessoas, conectando aldeia, cidade, estrada e rio — como quem tece, pouco a pouco, a própria sobrevivência.




Autor: Nhenety Kariri-Xocó




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