No Batti, ano de 2003, quando o vento soprava histórias antigas pelas margens do Opará, algo novo começou a nascer nas aldeias.
A ONG Thydêwá, com o patrocínio do BNDS através do Programa de Apoio a Crianças e Jovens em Situação de Risco Social, trouxe não apenas um projeto — trouxe um reencontro. Chamava-se Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas.
Não era apenas cantar. Era lembrar. Era acordar a memória adormecida nas vozes das Inghéá, as crianças que carregavam no peito a batida do maracá e o ritmo da terra.
Mais de três mil e quinhentas crianças das comunidades Pataxó HãHãHãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó, Pankararú, Tumbalalá, Tupinambá e Truká reuniram-se em roda, cada povo trazendo seu canto, sua dança, sua história guardada no tempo.
As Duboheridéá — as professoras — e o Duboherí Nhenety, junto com Sebastian, conduziam as rodas como quem acende fogueiras. Mas quem fazia o fogo crescer eram as próprias crianças.
Nos ensaios, os pés marcavam o chão como quem escreve no barro.
As mãos batiam no compasso da ancestralidade.
As vozes ecoavam além das aldeias.
Não falavam apenas de música.
Falavam de Cidadania.
Falavam de Direitos Humanos.
Falavam de Ecologia.
Falavam da Diversidade Cultural que forma o verdadeiro Brasil.
O primeiro grande encontro aconteceu na aldeia Kariri-Xocó. Os Etçamyá — parentes de outros povos — chegaram trazendo pinturas no corpo e alegria no olhar. A Erátekié Uanie — Escola Indígena — tornou-se casa de todos.
Ali, os cantos se misturaram como rios que se encontram.
E daquele encontro nasceu algo que poderia atravessar o tempo:
o Tonranran — o livro Wonhé Samyá Uanieá — Cantando as Culturas Indígenas — e o Craiwonpiwon — o CD com os cantos que agora podiam viajar para além das aldeias.
Mas o maior fruto não estava no papel nem no disco.
Estava nas crianças que descobriram que sua cultura não era passado.
Era presente.
Era futuro.
Era força.
E assim, naquele Batti de 2003, as vozes indígenas cantaram juntas — não para pedir espaço — mas para lembrar ao Brasil que sempre estiveram aqui.
E continuam cantando.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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