quinta-feira, 10 de setembro de 2026

BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA





1. FALSA FOLHA DE ROSTO


BECHIANTSE

A ROÇA É TUDO NA NATUREZA

Um conto de tradição oral Kariri-Xocó

Nhenety Kariri-Xocó






2. FOLHA DE ROSTO


BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA

Um conto de tradição oral Kariri-Xocó

Autor:
Nhenety Kariri-Xocó

Obra de memória, cultura, natureza e saberes ancestrais do povo Kariri-Xocó.






3. VERSO DA FOLHA DE ROSTO


© 2026 — Nhenety Kariri-Xocó
Todos os direitos reservados.

Esta obra apresenta uma narrativa inspirada em saberes, memórias, valores e conhecimentos tradicionais associados ao universo cultural Kariri-Xocó.

A narrativa literária e seus personagens foram construídos como expressão artística da tradição oral, da memória ancestral e da relação entre o povo, a Terra, as águas, as plantas, os animais e os demais seres da Natureza.

Autor: Nhenety Kariri-Xocó

Título: Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza






4. FICHA CATALOGRÁFICA


KARIRI-XOCÓ, Nhenety.

Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza: um conto de tradição oral Kariri-Xocó / Nhenety Kariri-Xocó. — Porto Real do Colégio, AL: edição do autor, 2026.

Obra de literatura de tradição oral e memória cultural indígena.

Literatura indígena.

Tradição oral.

Cultura Kariri-Xocó.

Natureza.

Agricultura tradicional.

Memória ancestral.

Educação ambiental.

Cosmologia indígena.

CDD: 398.20981
CDU: 398(81)





5. ISBN — SIMBÓLICO


ISBN SIMBÓLICO
978-65-00000-00-0

Identificação simbólica destinada à organização interna da coleção. Não corresponde necessariamente a um ISBN oficial atribuído por agência registradora.






6. PREFÁCIO OFICIAL DA COLEÇÃO


Esta obra integra o Acervo Virtual Bibliográfico Nhenety Kariri-Xocó, iniciativa dedicada à preservação, produção e difusão do conhecimento construído a partir das vivências culturais do povo Kariri-Xocó.

Fundamentado na memória, na ancestralidade e na experiência histórica, o Acervo orienta-se pela compreensão de que o saber se constrói por meio de encontros, trocas e transformações culturais ao longo do tempo.

Os elementos culturais, científicos e literários oriundos de diferentes povos e autores são respeitados em suas origens, sendo compreendidos como influências legítimas no processo de formação do conhecimento, sem reivindicação de autoria sobre tais contribuições.

Ao mesmo tempo, reconhece-se a existência de uma produção autoral própria, resultante da interpretação singular da realidade vivida.

Dessa forma, a presente obra se insere em uma continuidade cultural dinâmica, na qual tradição e criação se articulam, preservando identidades e projetando novos horizontes.





7. ESCLARECIMENTO DO AUTOR


A presente obra constitui, neste momento, um pré-projeto editorial em fase de estruturação acadêmica e organização bibliográfica.

Sua versão definitiva será futuramente submetida aos processos de revisão, diagramação, normalização segundo os padrões da ABNT, catalogação bibliográfica, classificação CDD e obtenção de ISBN oficial.

Enquanto perdurar esta etapa preparatória, parte das informações editoriais apresentadas possui caráter provisório e simbólico, destinando-se exclusivamente à identificação preliminar da obra.

O autor reafirma o compromisso com a preservação cultural, histórica e intelectual do acervo desenvolvido ao longo de suas pesquisas e produções literárias.

Nhenety Kariri-Xocó 






8. DEDICATÓRIA


Dedico aos anciãos e anciãs que conservaram histórias que não foram escritas, mas permaneceram vivas na voz do povo.

Dedico às crianças e aos jovens de Porto Real do Colégio, para que possam conhecer, representar e transmitir às futuras gerações as memórias de sua terra.

Dedico também ao Opará, nosso grande Rio São Francisco, testemunha silenciosa de tantos caminhos, encontros, partidas e acontecimentos.






9. AGRADECIMENTOS


Agradeço primeiramente aos nossos antepassados, que deixaram no caminho sementes de conhecimento para que as novas gerações pudessem encontrá-las.

Agradeço aos anciãos e às anciãs Kariri-Xocó, guardiões da palavra, da memória, das práticas tradicionais e dos ensinamentos que atravessam o tempo.

Agradeço às crianças e aos jovens, que recebem essas histórias e têm a responsabilidade de fazê-las caminhar para o futuro.

Agradeço à Natureza, que alimenta, ensina, acolhe e oferece continuamente seus frutos, suas águas, suas plantas e seus mistérios.

Agradeço também ao Opará, nosso grande rio, presença viva nas histórias, nos caminhos e na memória do nosso povo.






10. EPÍGRAFE


“Bechiantse: Natureza é a Roça.
A Roça é o mundo.
O mundo é um círculo.
E o círculo é vida.”

— Ensinamento presente na narrativa de Nhenety Kariri-Xocó






11. PREFÁCIO DO VOLUME


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza nasce como uma história de ensinamento. Seu ponto de partida é a roça, mas seu horizonte é muito maior: é a própria relação entre o ser humano e o mundo natural.

Na tradição oral, uma história nunca é somente uma história. Ela carrega advertências, ensinamentos, lembranças e caminhos para aqueles que vêm depois. Por isso, a caminhada de Yüri representa também a caminhada de uma nova geração diante dos conhecimentos recebidos dos mais velhos.

A presença da avó Jurema simboliza a sabedoria ancestral. Sua palavra orienta o menino a compreender que a Natureza não é apenas aquilo que existe ao redor da aldeia. Ela é o espaço inteiro da vida.

A narrativa apresenta ainda uma questão muito atual: o perigo de confundir fartura com excesso. Produzir mais, retirar mais e desejar sempre mais pode parecer progresso, mas pode também romper o equilíbrio necessário para que a vida continue.

Assim, Bechiantse nos convida a olhar novamente para a Terra e perguntar não somente “quanto podemos retirar?”, mas também “quanto precisamos cuidar?”






12. RESUMO


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza é um conto de tradição oral inspirado em saberes e valores Kariri-Xocó.

A narrativa acompanha Yüri, um menino nascido às margens do Opará, que aprende com sua avó Jurema que a roça não é apenas o espaço destinado ao cultivo. Para ele, a verdadeira roça compreende a Natureza inteira: as águas, as matas, as plantas, os animais, o barro, os alimentos e os conhecimentos.

Quando um forasteiro chega à aldeia oferecendo sementes que prometem grande produção, parte da comunidade acredita na promessa de fartura. Entretanto, os sinais da Natureza começam a revelar as consequências de um cultivo sem equilíbrio.

Por meio do sonho de Yüri e dos ensinamentos dos anciãos, a comunidade redescobre que retirar da Terra exige responsabilidade, gratidão e respeito.

Palavras-chave: Kariri-Xocó; tradição oral; Natureza; roça; Opará; ancestralidade; sementes; equilíbrio.





13. ABSTRACT


Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza is an oral tradition story inspired by Kariri-Xocó knowledge and cultural values.

The narrative follows Yüri, a boy born on the banks of the Opará River, who learns from his grandmother Jurema that the roça is not merely a place for cultivating crops. The true roça encompasses Nature itself: waters, forests, plants, animals, clay, food and knowledge.

When a stranger arrives in the village offering seeds that promise abundant harvests, part of the community accepts his proposal. However, signs in Nature gradually reveal the consequences of cultivation without balance.

Through Yüri's dream and the teachings of the elders, the community rediscovers that receiving from the Earth requires responsibility, gratitude and respect.

Keywords: Kariri-Xocó; oral tradition; Nature; agriculture; Opará River; ancestry; seeds; balance.






14. APRESENTAÇÃO


Este livro apresenta uma narrativa construída a partir da tradição oral e dos conhecimentos relacionados à vida, à Natureza e à memória do povo Kariri-Xocó.

O título Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza expressa uma compreensão ampla da palavra “roça”. A roça não deve ser entendida somente como um pedaço de terra preparado para plantar. Ela representa uma rede de relações.

A água participa da roça. A mata participa da roça. As sementes participam da roça. Os animais participam da roça. O conhecimento participa da roça.

Por isso, quando uma dessas partes é prejudicada, todo o conjunto sente.

A história de Yüri procura transmitir esse entendimento às novas gerações por meio de uma narrativa simples, simbólica e educativa.






15. NOTA DO AUTOR


Este conto foi elaborado como uma obra de tradição oral literária, inspirada em conhecimentos, valores e concepções presentes no universo cultural Kariri-Xocó.

Os personagens Yüri, Jurema, Kauê, Muruibá e Seu Valdo integram a construção narrativa desta obra.

Os termos indígenas apresentados no conto são utilizados dentro do contexto literário e cultural da narrativa.

A intenção desta obra é contribuir para a preservação da memória, estimular o respeito à Natureza e fortalecer a transmissão de conhecimentos entre as gerações.






16. MEMÓRIA DO AUTOR


A trajetória de Nhenety Kariri-Xocó está ligada à preservação da memória, da oralidade, das histórias, da cultura e dos conhecimentos do seu povo.

Como contador de histórias, sua escrita procura estabelecer uma ponte entre a palavra ancestral e os meios contemporâneos de registro.

A literatura torna-se, assim, uma espécie de lugar de memória: aquilo que antes caminhava principalmente pela voz passa também a permanecer registrado em livros, imagens e arquivos digitais.

Em Bechiantse, essa trajetória encontra a Natureza como tema central.

A roça, as sementes, o rio, a mata e os ensinamentos dos mais velhos tornam-se personagens de uma memória coletiva que precisa continuar sendo transmitida.






17. APRESENTAÇÃO DA OBRA


A obra está organizada como uma caminhada de aprendizagem.

Yüri inicia sua jornada como criança curiosa e termina como jovem guardião de um ensinamento.

A trajetória possui quatro movimentos principais:

I — Aprender com a Natureza
Yüri conhece a floresta e seus ensinamentos.

II — Receber da Natureza
Ele compreende o significado de mipedda, aquilo que é retirado do mundo.

III — Reconhecer o perigo do excesso
As sementes do forasteiro trazem a promessa de fartura, mas também desequilibram a vida.

IV — Replantar a memória
A comunidade recupera seus conhecimentos e volta a cultivar em equilíbrio com a Natureza.






18. INTRODUÇÃO


Desde os tempos antigos, os povos indígenas desenvolveram formas próprias de compreender a relação entre humanidade e Natureza.

Nesse entendimento, o ser humano não está separado da Terra. Ele pertence a ela.

A história de Yüri apresenta justamente essa perspectiva. O menino aprende que a Natureza não é um depósito de recursos disponíveis sem limite. Ela é uma comunidade de vida.

A expressão Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza sintetiza essa visão.

A roça é alimento, mas também é água.

É plantação, mas também é floresta.

É trabalho, mas também é conhecimento.

É território, mas também é memória.

É presente, mas também é responsabilidade com o futuro.






19. SUMÁRIO


1. Falsa Folha de Rosto
2. Folha de Rosto
3. Verso da Folha de Rosto
4. Ficha Catalográfica
5. ISBN Simbólico
6. Prefácio Oficial da Coleção
7. Esclarecimento do Autor
8. Dedicatória
9. Agradecimentos
10. Epígrafe
11. Prefácio do Volume
12. Resumo
13. Abstract
14. Apresentação
15. Nota do Autor
16. Memória do Autor
17. Apresentação da Obra
18. Introdução
19. A Narrativa Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza:
1 — O Círculo Sagrado da Vida
2 — Yüri, Filho do Caminho da Água
3 — A Escola da Floresta
4 — Os Ensinamentos das Plantas
5 — A Palavra Mipedda
6 — As Sementes do Forasteiro
7 — O Sonho de Yüri
8 — A Fartura que Escondia um Perigo
9 — Quando o Opará se Calou
10 — A Grande Gameleira
11 — O Pedido de Perdão à Natureza
12 — Replantando a Memória
13 — A Terra Volta a Sorrir
14 — A Canção do Equilíbrio
20. Considerações Finais
21. Glossário
22. Referências Bibliográficas
23. Sobre o Autor






20. A NARRATIVA: BECHIANTSE — A ROÇA É TUDO NA NATUREZA



1 — O CÍRCULO SAGRADO DA VIDA




Escutem bem, crianças, jovens e velhos, porque vou contar uma história antiga, daquelas que caminham de boca em boca e nunca devem se perder no vento. É uma história inspirada nos saberes do povo Kariri-Xocó, onde a palavra Bechiantse nos ensina que a Natureza é a Roça e que a Roça não é somente o lugar onde plantamos milho, feijão ou mandioca. Roça é o mundo inteiro que nos alimenta: são as águas do Opará, os ventos que atravessam as folhas, o barro que moldamos, as plantas que curam, os animais, os saberes e tudo aquilo que a natureza oferece em equilíbrio. Esta é a história de um menino chamado Yüri, que aprendeu com sua avó que viver é saber receber da Terra sem esquecer de cuidar dela.





2 — YÜRI, FILHO DO CAMINHO DA ÁGUA




Há muito tempo, quando os pássaros ainda cantavam como se conversassem diretamente com os seres humanos, existia uma aldeia Kariri-Xocó às margens do grande rio Opará. Ali nasceu Yüri, cujo nome significava Filho do Caminho da Água. Os anciãos diziam que aquele menino nascera com os olhos do rio, porque olhava tudo com profundidade e curiosidade. Sua avó, a sábia Jurema, era uma mulher de muita experiência e conhecia os ensinamentos antigos. Ao cair da noite, quando a aldeia se reunia perto do fogo, ela chamava o neto para perto e começava a ensinar aquilo que aprendera dos seus antepassados.





3 — A ESCOLA DA FLORESTA




— Wohotsé, meu neto — dizia Jurema —, nunca esqueça que toda a floresta é um ser vivo que nos alimenta. Nós fazemos parte dela e ela também faz parte de nós. Yüri escutava em silêncio, guardando cada palavra dentro do coração. Durante o dia, caminhava pela mata com seu amigo Kauê, menino alegre e ligeiro como o vento. Juntos observavam as árvores, os animais, os rios e as plantas, aprendendo que cada ser possuía seu lugar na grande roda da vida. Para aqueles dois meninos, a mata era como uma escola sem paredes, onde cada folha, cada bicho e cada correnteza ensinava alguma coisa.





4 — OS ENSINAMENTOS DAS PLANTAS




A mandioca ensinava que a terra só oferece bons frutos a quem sabe respeitá-la. O jenipapo mostrava que a beleza não estava apenas no corpo, mas também naquilo que se carregava dentro do espírito. O cipó-de-cobra lembrava que certas forças da natureza exigiam distância, cuidado e reverência. Yüri aprendia que nenhum conhecimento devia ser tomado com arrogância. Tudo tinha seu tempo, seu lugar e sua maneira de ser utilizado. Jurema dizia que quem conhece a natureza precisa primeiro aprender a escutá-la, porque a Terra fala através das águas, das plantas, dos animais, dos ventos e até do silêncio.





5 — A PALAVRA MIPEDDA




Certa noite, Jurema ensinou ao neto uma palavra muito antiga: mipedda. Ela explicou que mipedda era tudo aquilo que retiramos do mundo. Não era somente o alimento que saía da roça. Era também o barro retirado das margens do rio para fazer cerâmica, a madeira utilizada para construir uma casa, o peixe pescado no Opará e as folhas usadas para preparar remédios. Tudo aquilo que recebemos da natureza era mipedda. Mas a velha avó levantou o dedo e advertiu: — Cuidado, meu neto! Aquele que recebe da Terra precisa saber agradecer. Devemos retirar somente aquilo de que necessitamos, porque a natureza não foi feita para alimentar a ganância.




6 — AS SEMENTES DO FORASTEIRO




Yüri guardou aquela lição no peito. Mas um dia chegou à aldeia um homem vindo da cidade. Montado em um cavalo branco, chamava-se Seu Valdo e trazia consigo grandes sacos cheios de sementes douradas. Reuniu os moradores e falou com entusiasmo: — Com estas sementes, suas roças produzirão mais milho do que vocês jamais viram. Vocês terão fartura e eu comprarei tudo por um bom preço. Será o progresso para o seu povo! Muitos jovens ficaram encantados com a promessa de uma grande colheita. Porém, os anciãos, entre eles o cacique Muruibá e a própria Jurema, olharam uns para os outros com preocupação.






 7 — O SONHO DE YÜRI




Naquela mesma noite, Yüri teve um sonho diferente de todos os outros. Viu a floresta diminuindo, as árvores desaparecendo e o rio Opará perdendo suas águas. Os pássaros haviam partido e o silêncio tomava conta da mata. Yüri viu a própria floresta chorando e acordou assustado. Correu até sua avó e perguntou: — Avó, sonhei que a mata estava chorando. Será que fizemos alguma coisa errada? Jurema abraçou o neto e respondeu: — Teu espírito já está aprendendo a ouvir os sinais, meu filho. Lembra-te de outra palavra antiga: kenantse. É nossa criação na natureza. Devemos cultivar aquilo que realmente serve à vida e às nossas necessidades, e não alimentar um desejo que nunca termina.





 8 — A FARTURA QUE ESCONDIA UM PERIGO




Mesmo assim, parte da aldeia decidiu plantar as sementes trazidas pelo forasteiro. Grandes roçados foram abertos e, nos primeiros meses, tudo parecia maravilhoso. O milho cresceu alto e forte, ultrapassando a altura de um homem. Muitos acreditaram que Seu Valdo tinha razão e que aquela seria uma nova época de fartura. Porém, os anciãos continuavam observando em silêncio. Eles sabiam que nem tudo que cresce depressa traz benefício para a vida. E, pouco a pouco, começaram a aparecer sinais que ninguém podia mais ignorar.





9 — QUANDO O OPARÁ SE CALOU




Primeiro desapareceram as abelhas. Depois, as borboletas deixaram de visitar as flores. A terra começou a ficar dura, seca e cansada. As plantas já não pareciam tão alegres e os animais começaram a procurar outros lugares. Até o rio Opará, que antes era cheio de peixes e movimento, parecia ter ficado triste. Seu canto diminuiu e suas águas já não mostravam a mesma abundância. Então os moradores começaram a compreender que a fartura prometida não era apenas uma questão de colher muito. Era preciso perguntar o que estava acontecendo com todo o círculo da vida.






10 — A GRANDE GAMELEIRA




Diante daqueles sinais, os anciãos chamaram toda a aldeia para uma grande reunião sob a sombra da gameleira. Jurema levantou-se e falou com firmeza: — Filhos da aldeia, esquecemos aquilo que nossos antigos nos ensinaram. Bechiantse: Natureza é a Roça. A roça não termina onde começa a mata, nem onde acaba o campo. A roça é tudo que vive em harmonia. Quando ferimos uma parte desse círculo, todas as outras partes também sofrem. Yüri ouviu aquelas palavras e compreendeu que seu sonho não era apenas um sonho. Era um ensinamento que precisava ser ouvido por todos.





11 — O PEDIDO DE PERDÃO À NATUREZA




Então Yüri pediu a palavra diante dos anciãos e de toda a comunidade: — Vamos pedir perdão à floresta. Vamos replantar as sementes dos nossos ancestrais e cuidar novamente da terra. Vamos devolver à mata o espaço que tiramos dela e aprender outra vez a retirar somente aquilo de que precisamos. Os anciãos concordaram. A aldeia se preparou para um grande momento de reconexão com a natureza. Cantaram seus cantos antigos, agradeceram às águas, aos ventos, às árvores e aos seres que compartilhavam aquele território. Cada palavra era uma forma de lembrar que o ser humano não está acima da natureza: ele caminha dentro dela.





12 — REPLANTANDO A MEMÓRIA




Depois daquele momento, todos começaram a trabalhar juntos. Replantaram o milho nativo, o feijão e a mandioca. Voltaram a cuidar das plantas tradicionais e passaram a retirar o barro do rio com reverência. Deixaram espaços para a floresta respirar e para os animais encontrarem abrigo. Aprenderam novamente que uma boa roça não é aquela que ocupa toda a terra, mas aquela que convive com a mata, com a água, com os bichos e com os ventos. Yüri e Kauê passaram a ensinar às crianças menores aquilo que haviam aprendido com Jurema. Assim, o conhecimento começou novamente a caminhar de geração em geração.






13 — A TERRA VOLTA A SORRIR




O tempo passou, e a natureza começou a responder ao cuidado da aldeia. As primeiras abelhas voltaram. Depois chegaram as borboletas, visitando novamente as flores. Os peixes começaram a aparecer nas águas do Opará e a mata voltou a vestir-se de verde. A terra, antes cansada, recuperou sua força. Yüri cresceu e tornou-se um jovem respeitado por seu conhecimento e por sua capacidade de escutar os ensinamentos dos antigos. Sob a grande gameleira, passou a contar histórias para as crianças e sempre repetia: — Bechiantse: Natureza é a Roça. A Roça é o mundo. O mundo é um círculo. E o círculo é vida.





14 — A CANÇÃO DO EQUILÍBRIO




E assim termina esta história, mas o ensinamento continua caminhando. Dizem que, nas noites de lua cheia, quando o vento passa suavemente pelas trilhas da mata, ainda é possível ouvir a voz de Yüri ensinando uma nova geração: “Natureza é a Roça. Roça é o mundo. O mundo é um círculo. O círculo é vida.” Que ninguém tome da Terra mais do que necessita, que ninguém se esqueça de agradecer aquilo que recebe e que cada geração saiba entregar às próximas uma natureza viva e respeitada. Porque Bechiantse nos ensina que a Roça é tudo: é a água, a mata, o barro, o alimento, o conhecimento, o espírito e a própria vida. Que esta história permaneça guardada na memória e nunca se perca no vento.






21. CONSIDERAÇÕES FINAIS


A história de Yüri termina, mas seu ensinamento permanece.

A grande lição de Bechiantse é que a verdadeira fartura não pode ser medida somente pela quantidade de alimentos colhidos.

Fartura também é ter água limpa.

É ouvir os pássaros.

É encontrar abelhas nas flores.

É ver a mata verde.

É pescar sem destruir.

É plantar sem esgotar.

É retirar sem desperdiçar.

É receber sem esquecer de agradecer.

A Natureza oferece, mas também pede cuidado.

Quando a comunidade recupera suas sementes e seus conhecimentos, ela não está simplesmente voltando ao passado. Está recuperando uma forma de construir o futuro.

Bechiantse permanece como ensinamento: a Roça é tudo na Natureza, e cuidar da Natureza é cuidar da própria vida.






22. GLOSSÁRIO


Bechiantse — Palavra apresentada na narrativa com o sentido de que a Natureza é a Roça; expressão central do conto.

Mipedda — Tudo aquilo que retiramos do mundo natural, incluindo alimentos, barro, madeira, peixes, folhas e outros elementos necessários à vida.

Kenantse — Termo apresentado na narrativa relacionado à criação na Natureza e ao cultivo daquilo que serve à vida e às necessidades humanas.

Opará — Grande rio associado à região e à memória cultural Kariri-Xocó.

Roça — No contexto da narrativa, não apenas o terreno de cultivo, mas uma concepção ampliada do espaço de vida e das relações entre Natureza e comunidade.

Jurema — Avó de Yüri e personagem associada à sabedoria ancestral.

Yüri — Menino protagonista da narrativa, apresentado como “Filho do Caminho da Água”.

Kauê — Amigo de Yüri, companheiro de suas caminhadas pela floresta.

Muruibá — Cacique mencionado na narrativa e representante da liderança comunitária.

Ancestralidade — Continuidade dos conhecimentos, memórias e ensinamentos transmitidos entre gerações.

Natureza — Conjunto vivo de águas, matas, animais, plantas, terras, ventos e demais elementos com os quais a comunidade estabelece relações.






23. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 



KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Bechiantse, Natureza é a Roça. Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/06/bechiantse-natureza-e-roca.html?m=0  . Acesso em: 07 set. 2026. 

KARIRI-XOCÓ, Nhenety. Woroy História, Cosmologia Kariri-Xocó: Contos – Volume 1 (Coletânea). Disponível em:

https://kxnhenety.blogspot.com/2025/11/woroy-historia-cosmologia-kariri-xoco.html?m=0⁠  . Acesso em: 07 set. 2026. 







24. SOBRE O AUTOR


NHENETY KARIRI-XOCÓ

Nhenety Kariri-Xocó é contador de histórias, agricultor, escritor e guardião de memórias relacionadas à cultura e aos saberes do povo Kariri-Xocó.

Sua produção reúne narrativas, contos, cordéis, estudos culturais, registros históricos e criações voltadas à valorização da tradição oral, da ancestralidade, da língua, da cosmologia e da identidade indígena.

Em sua obra, a palavra escrita procura preservar aquilo que tradicionalmente vive na oralidade: histórias transmitidas pelos mais velhos, ensinamentos sobre a Natureza, memórias do território, nomes, famílias, costumes e conhecimentos ancestrais.

Bechiantse — A Roça é Tudo na Natureza integra esse caminho de preservação da memória, apresentando às novas gerações uma história em que a Terra não aparece apenas como lugar de cultivo, mas como uma grande comunidade de vida.

Nhenety Kariri-Xocó
Worobü Woroyá Toklikli — Contador de Histórias Oral





Autor: Nhenety Kariri-Xocó




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