No final do século XIX, quando as águas do Rio São Francisco ainda desenhavam com majestade as margens férteis do Baixo Sertão, havia um homem que era mais que um simples habitante da região; era uma lenda viva entre os povos indígenas e ribeirinhos. Seu nome era Gabriel Gonçalves, mas todos o conheciam como Gravié.
Gravié era um indígena forte, respeitado e, acima de tudo, generoso. Vivia na Rua dos Índios, na periferia de Porto Real do Colégio, Alagoas, onde o tempo parecia caminhar ao ritmo das águas do Velho Chico. Com seu talento incomum para a cura e a sabedoria herdada dos seus ancestrais, Gravié tornou-se um homem próspero. Possuía fazendas, terras férteis e um imenso rebanho de gado que pastava livre pelas campinas do sertão. O dinheiro era abundante, mas não era a riqueza que fazia dele um homem admirado — era sua capacidade de aliviar a dor dos outros.
As portas da casa de Gravié nunca se fechavam. De manhã até o anoitecer, indígenas de diversas partes do Baixo São Francisco vinham em busca de alívio, cura e orientação. Com ervas, rezas e conhecimento ancestral, Gravié atendia a todos com paciência e sabedoria. Ao seu lado, sempre estava sua esposa, Luzia, irmã do respeitado Pajé Manoel Paulo, que também partilhava do dom e da responsabilidade de cuidar dos seus.
Os anos se passaram, e a casa de Gravié se tornou um verdadeiro centro espiritual e comunitário, onde vidas eram salvas e tradições preservadas. Mas em 1910, um silêncio profundo abateu-se sobre a Rua dos Índios: Luzia faleceu, deixando um vazio imenso não apenas no coração de Gravié, mas em toda a comunidade.
Mesmo tomado pela dor, Gravié não se entregou à tristeza. Tempos depois, uniu-se em matrimônio com Maria Matildes, uma mulher forte e conhecedora dos mesmos saberes curativos que faziam parte de sua trajetória. Com ela, Gravié encontrou nova força para seguir atendendo aos seus irmãos indígenas, mantendo viva a chama da solidariedade e do cuidado.
Em 1932, Gravié fez sua última viagem, deixando a vida com a mesma dignidade com que viveu. Mas seu legado não se perdeu. Maria Matildes continuou a acolher, curar e proteger os indígenas que, diariamente, buscavam refúgio e cura naquela casa que há décadas era símbolo de resistência e esperança.
O tempo seguiu seu curso, e em 1944, com a criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, uma nova fase se iniciou para os povos indígenas da região. A missão de assistência e acolhimento que Gravié e Matildes haviam mantido por tantos anos passou a ter respaldo institucional, mas a memória de Gravié permaneceu viva, como as águas do São Francisco que jamais cessam de correr.
E até hoje, nas histórias contadas pelos mais velhos sob a sombra das gameleiras, ecoa o nome de Gravié — o curador, o homem que transformou sua sabedoria em vida, seu lar em abrigo, e sua existência em legado.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó
Consultado por meio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), inteligência artificial como apoio para elaboração do trabalho, em 24 de maio de 2025 e a capa no dia 25 de maio de 2025.

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