Dedicatória
Dedico este cordel
À memória popular,
Que guarda no coração
O poder de recontar.
Entre a sombra e a luz viva,
O mistério vem cantar.
Mote
Dois magos em desafio
A história vai recordar:
Merlim, senhor das brumas,
Cipriano a conjurar.
Um profetiza destino,
Outro se deixa arrastar.
O Encontro dos Magos
Na floresta encantada
Dois magos foram se ver,
Merlim da Bretanha antiga,
Cipriano a florescer,
Um com as fadas e os ventos,
Outro a demônio prender.
Cipriano veio altivo,
Da Antioquia nasceu,
Com pactos e sortilégios
Seu grande nome cresceu,
Mas Merlim, das brumas sábias,
O destino lhe previu.
“Ouvi dizer, forasteiro,
Que teu poder não tem fim,
Mas magia que se entrega
Ao mal nunca é semim.
Logo verás uma moça
Que derrota teu festim.”
Cipriano riu com força:
“Sou temido em todo canto,
Faço reis se ajoelharem,
Faço pedra virar pranto.
Ninguém resiste ao meu mando,
Nem a lua ao meu encanto.”
Merlim então respondeu:
“O futuro já conheci,
Tua derrota se aproxima,
Não será longe daqui.
Maior que o teu feitiço
É a fé que mora ali.”
Na neblina desaparece
O mago do Rei Artur,
Deixando em sombra e silêncio
Uma sentença tão pura:
Cipriano, ainda incrédulo,
Seguiu na estrada escura.
O Encontro com Justina
Logo na cidade houve
Um pedido tentador:
Um jovem rico e vaidoso
Desejava o seu amor,
Mas Justina era cristã,
De uma fé de grande ardor.
Chamaram Cipriano então
Pra dobrar o coração,
Ele invocou mil demônios,
Fez feitiço e maldição,
Mas Justina em oração
Se firmava na paixão.
Quanto mais magia vinha,
Mais brilhava sua luz,
A donzela só clamava
O poder de Jesus,
E o feitiço se quebrava,
Como ferro em uma cruz.
Cipriano se espantou,
Nada pôde lhe valer,
Lembrou-se logo de Merlim,
E da palavra a dizer:
“Maior que toda feitiçaria
É a fé que vai vencer.”
A Conversão e o Martírio
Tomado de grande assombro,
Se entregou ao Redentor,
Queimou livros e grimórios,
Renunciou seu terror,
E encontrou na fé de Cristo
Novo rumo e novo ardor.
Ao lado da bela Justina
Se tornou firme cristão,
Mas pagou o preço alto
Na cruel perseguição.
Mártir foi, e hoje é santo,
Recordado em oração.
Fecho
Assim termina o cordel,
Que no povo se eterniza,
Entre magos lendários
E a fé que se realiza,
Merlim selou a profecia,
E Justina foi a divisa.
Cipriano, o grande mago,
Hoje é santo de devoção,
Sua história é lembrada
Na cultura e tradição.
Do feitiço fez-se graça,
Da treva fez-se clarão.
Autor: Nhenety Kariri-Xocó

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