segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

UCHÉ WONGHERÉ – O TEMPO DA POBREZA






A fogueira ardia mansa no centro da aldeia. As chamas dançavam como espíritos antigos, lançando sombras nas paredes de barro das casas. As crianças se achegavam, os mais velhos sentavam em silêncio. Era tempo de escuta.


Neêperé, a anciã, ajeitou o manto sobre os ombros marcados pelos anos e chamou com a voz calma:


— Indaiá, venha mais perto, minha neta. Hoje vou falar do Uché Wongheré, o tempo da pobreza… para que você nunca esqueça.


Indaiá sentou-se aos pés da avó, os olhos atentos, enquanto o povo se aproximava. Quando Neêperé falava, era como se a própria terra respirasse.


— Houve um tempo — começou ela — em que os Uanieá, nosso povo indígena, viviam em harmonia com a Antse, a Natureza. A Radda, a Terra, nos dava sustento. Da Retsé, a Floresta, vinham os alimentos, os remédios, os ensinamentos. Havia fartura todos os dias, e o coração do povo era leve.


O fogo estalou, como se confirmasse aquelas palavras antigas.


— Mas então veio outro Uché, outro tempo… o tempo da chegada dos Caraí, os brancos. Vieram os Peró, os portugueses, junto com os missionários. Criaram a Natiwaré, a Aldeia dos Padres, reunindo indígenas sob regras que não eram as nossas.


Neêperé fez uma pausa. Seus olhos marejaram, mas a voz seguiu firme.

— Anos depois, aquela aldeia deixou de ser aldeia. A Woroby, a notícia, chegou dura: a Natiá havia se tornado Naticróraí, um povoado de brancos, uma cidade. Diziam que agora ali viviam os Uanaraí, caboclos, mistura de indígenas e brancos. Mas para nós… foi o começo da perda.


Indaiá apertou a mão da avó.

— Os Uanieá perderam seus Honéá, seus direitos sobre a Radda, a Terra. Foi uma grande Dzeyá, uma tristeza profunda. Começou nosso Unu, o sofrimento. A Ami, a fome, entrou na aldeia como um vento frio que não vai embora.


Algumas pessoas ao redor abaixaram a cabeça. Outras deixaram cair silenciosas Pocú, lágrimas antigas.


— Fomos empurrados para a Woderáehó Uanieá, a Rua dos Índios. Ali, muitos homens começaram a Wodó, a se embebedar, tentando calar a dor. O Tseho, o povo, adoeceu, caiu em Canghikié, estado de doença do corpo e da alma.


A anciã respirou fundo antes de continuar.

— Muitos partiram para o Naté Wanheré, trabalhar nas fazendas dos brancos. As Tetsiá, as mulheres, foram levadas para as Erácaraí, as casas dos brancos, como domésticas. Era Arancreru, vergonhoso. Vestíamos Roruréá, roupas velhas, e vivíamos na Wongheré, a pobreza.


O silêncio pesou, quebrado apenas pelo som do fogo.


Então Neêperé ergueu o olhar, firme como tronco antigo.


— Mas, minha neta, escute bem: mesmo na dor, nunca perdemos a Coram, a esperança. Depois de muitos anos de sofrimento, o povo entendeu que precisava Teudiokié Honéá, lutar pelos seus direitos.


Ela sorriu, suave.


— Essa é a nossa história. Foi assim quando a Natiá, a aldeia, virou Naticróraí, a cidade dos brancos. Mas também foi assim que aprendemos a resistir, a lembrar quem somos e a ensinar aos mais novos.

Neêperé acariciou os cabelos de Indaiá.


— Enquanto houver quem conte e quem escute, nosso tempo não será esquecido.

A fogueira continuou acesa. E a memória também.





Autor: Nhenety Kariri-Xocó





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