quinta-feira, 1 de agosto de 2013

COMERCIO E COMERCIANTES



   Os índios vendem sua produção agrícola, da cerâmica, da olaria, do artesanato e da pesca aos brancos no comércio da cidade de Porto Real do Colégio. Na Aldeia indígena temos também comerciantes índios, que tem mercearias, vendendo produtos de supermercado,  muito importante para nosso povo fazer suas compras aqui mesmo, valorizando a economia local. Temos a Mercearias Pingo, Mercearia União, Maria Santa, Tái e Coisa tivemos ao longo dos anos, muitas que faliram. A Mercearia Pingo era a maior da tribo em 2006, vendia de tudo um pouco produtos enlatados, produtos de beleza, alimentação, limpeza e outros. Depois veio a Mercearia Nunes do senhor Dalírio, temos agora a Mercearia Kariri  Fulni-o, João Variedades, Divá e outros mais que estão aparecendo. Temos Casas de materiais de construção que vende porta, cimento, ferro, lampadas, cola, fio elétrico etc. Neste comércio interno os índios aposentados, funcionários, e assalariados, compram a prazo, por mês. Também na aldeia indígena chegam prestanistas, para vender a prestação nas portas dos índios, oferecem lençóis, mosquiteiros, panelas, redes, colchões e roupas. Esta atividade de comerciantes brancos que vendem na tribo, já faz mais de 30 anos. Os indígenas compram no comércio da cidade de Colégio e propriá, Elétro-domésticos: Televisão, geladeira, DVDs, CDs, liquidificadores e ventiladores. Compram móveis: armários, camas, estantes, guarda-roupas etc. Assim é o comércio e comerciantes na tribo Kariri-Xocó, muitas lojas já trabalham com os indígenas a anos, muitas dos móveis característicos do lar vem daí, pelo contato permanente com a sociedade nacional e agora internacional  .  http://www.indiosonline.net/comercio_e_comerciantes_da_tribo/   .

Nhenety Kariri-Xocó.

CAMINHANDO ATÉ O REI

Ilha de São Pedro
Grande caminhada na Terra
    Na província de Sergipe no século XIX  os índios Xocós foram perseguidos, descriminados pelos colonizadores que queriam o território indígena, muita luta e sofrimento deixava nós a mercê dos fazendeiros da região do Baixo São Francisco, em Porto da Folha na Ilha de São Pedro e Terras da Caiçara. No Território Xocó terras inundáveis das lagoas proporcionava a fertilidade da terra para o plantio de arroz, a ilha molhada pelas águas do rio facilitava à colheita das roças, na Caiçara a mata cobria grande área, pastagens naturais de caatinga almentou a cobiça do invasor.  Diante das ameaças de perder as terras o Cacique Inocêncio Pires,  Manoel Lapada empreenderam uma viagem até o Rio de janeira para falar com o Imperador D. Pedro II. Nesta viagem foi de muita penúria, sem recursos financeiros, sem transportes fizeram uma grande caminhada, passando privações, dormindo pelas estradas, enfrentando onças, cobras e pessoas indesejáveis.  Após muitos dias de caminhada chegaram a capital do Império, passaram outros tempo até falar com  D. Pedro II, reclamaram dos invasores do Território Indígena dos Xocós, segundo informações dos mais velhos  Inocêncio recebeu as garantias do Rei que as terras era dos índios. Contentes o Chefe Inocêncio  e os indígenas que estavam acompanhando retornaram para a aldeia trazendo boas novas. Nada adiantou os invasores das terras continuaram com as perseguições até finalmente expulsarem grande maioria cerca de 80 % do povo Xocó da Ilha e Caiçara, sem alternativa os índios buscaram  refúgio entre os Kariri de Porto Real do Colégio, com esta união étnica destes dos grupos formaram a Comunidade Kariri-Xocó.

Nhenety Kariri-Xocó          

FACHIAMENTO DA ROLINHA

Fachiador com candeeiro na cabeça, estilingue e bisaco a tiracolo : desenho Nhenety
   Na época da fartura dos pássaros, muitas aves povoam do sertão para os campos, e capoeira de mato ralo, nos arbustos fazem seus poleiros de dormida, o céu fica repleto de bandos e mais bandos formando figuras interesantes. Os caçadores indígenas tem uma técnica de capturar esses pássaros à noite, arrumam um candeeiro com corda pressa na cabeça, para iluminar a caça, veste calça velha, faca, peteca (estiling), bota de couro ou sapato para proteger os pés de espinhos. Dizia minha mãe Maria de Lourdes que na década de 1930 e 1940, o Fachiamento de Rolinha era com vara de mameleiro, porque naquele tempo tinha em grande abumdancia estes pássaros. os fachiadores mais velhos Euclides, Erpídio, Dunga, Otávio, Antonio de Zeca e muitos outros. Entre os pássaros mais caçados se destacam-se as rolinhas- capim, rolinha cardo-de-feijão, rolinha-azul, nambu, e outros. Cada caçador matam numa média de 100 rolinhas, caçando a noite toda, encontrando inúmeros perigos, cobras, escorpiões, buracos, raposas chocas e visagens. Com as novas gerações de Fachiadores de 1950 a 1970 a rolinha ficou mais pouca, porque migraram para o Alto Sertão, foi criadas várias barragens lá agora tem água.Os lugares mais freqüentados pelos fachiadores são as grotas de Mauro Barreto, Antônia Ananias, Cambotá, Caminho do Paturi, Cercado Grande e outros. Entre os fachiadores indígenas que mais se destacaram nestas caçadas foram : Candará, Zeca, Lula, Divardinho, Adelsom, Juarez, Zé Bachinho, Antônio Minhoca e outros. De manhã quando retornavam as mães de famílias , com as crianças saiam logo para despenar os pássaros, a rua da aldeia ficava alva de penas, as rolinhas são pássaros muitos saborosos e nutritivos, as mulheres faziam uma fritada para tomar o café. Ao meio dia o almoço estava garantido, a aldeia cheirava a rolinha fresca fervendo, a barrigada era certa, a noite a mesma coisa , agora rolinha assada na brasa. Nós não passávamos fome porque aproveitavar-mos a chance que a natureza nos oferecia.  http://www.indiosonline.net/fachiamento_da_rolinha/  .

Nhenety Kariri-Xocó.

PEGAR PÁSSAROS MOLHADOS


Anum pássaro muito fácil de pegar
   O inverno aqui na tribo vem no mês de abril ou maio, chove muito na terra, o solo fica ensopado, com barro vermelho pegajoso, as grotas começam a estrondar pelo barulho das águas, enche lagoas, o rio, o mato fica verde. Temos um costume quando chove, os rapazes vam no pasto pegar pássaros de mão, os bichinho ficam molhado, não podem voar, as penas ficam pesadas, é fácil do índio pegar. Tem pássaros que voam sem problemas, outros não , alguns ficam encolhidos debaixo de uma moita. O anum pássaro preto alarmento, é o mais fácil de pegar, a nambu também sente dificuldade de voar, muitos índios pegam para comer, em tempo de crise, quando a fome acochar. Tornar-se um assado gostoso, assado na brasa, café e farinha azeda de mandioca. O índio que mais gosta de pegar anum molhado é o Sr., Pedro Girí, sai convidando ou outros “ Vamos pegar Anum Molhado “, alguns vam com ele, trazem muito passarinhos. A técnica é só correr atrás dos pássaros no capim, sem poder voar, os bichos corre pouco e cansam, basta segurar com a mão e colocar no saco. Mas agora isso quase não se usa mais, os pássaros estão poucos, as condições de vida da gente mudou, temos que manter o costume , “ Pegar o Pássaro Molhado “ e soltar de volta para a natureza devolver.  http://www.indiosonline.net/pegar_passaros_molhados/   .

Nhenety Kariri-Xocó.

INFLUENCIA DA TELEVISÃO

                                                        

Modelo antigo da TV
    Na Aldeia Kariri-Xocó município de Porto Real do Colégio-AL., sempre escutávamos as histórias de dia e principalmente os mais velhos ao redor das fogueiras, isso antes da chegada da energia elétrica.  Os anciões ficavam nas portas conversando com os adultos, as crianças ficavam escutando deitada na esteira de piripiri feita de junco, olhando a lua e as estrelas brilhantes no céu. Ali contavam os acontecimentos do passado, daquele tempo presente, das pescarias no Rio São Francisco, trabalhar para fazendeiros e donos de lagoas, caçadas facheando rolinhas pequenos pássaros  comestíveis. Quando havia algum acontecimento importante na tribo cantavam o Toré como comemoração, assim foi passando de geração em geração. Depois apareceu o rádio desviou um pouco a  atenção do indígenas para as novidades do Brasil desconhecido, notícias, programas, músicas passaram ajuntar as pessoas ao pé do aparelho. Mas as mudanças apareceram com mais frequência foi com a televisão, com suas imagens, comerciais, novelas, jogos, desenho animado, jornal, programas de auditório, ficamos conhecendo o mundo, pouca gente podia possuir o aparelho, a sala da casa do índio José Francisco Tononé ficava cheia de pessoas, tinha que chegar cedo para pegar um lugar no pouco espaço.  Tempo depois mais índios começaram a comprar mais aparelhos de TV, a aldeia ficava mais quieta, o povo ficava nas casas vendo as novelas, filmes e jogos do campeonato brasileiro, nas portas era mais difícil encontrar os anciões contando histórias, as crianças queriam ver os desenhos animados. Quando aparecia algum produto de consumo no comercial da TV logo o objeto apresentado tornava um sonho a realizar, roupas, calçados, perfume, carros, viagens, moda, ainda mais apareceu novos costumes desconhecidos logo assimilados pelos jovens, com o passar dos anos percebemos quanta coisa mudou em nossa aldeia.  Chamamos as pessoas para cantar o Toré,  alguns respondem eu não, vou assistir a novela, outro diz vou ver o jogo que vai ser bom hoje, até os mais velhos estão focados na televisão , não podemos esquecer nossa cultura, vamos novamente contar nossas histórias, voltar as atividades  tradicionais , era isso que nos faziam um povo diferente dos outros. Mas aos pouco vou concientizando de nossos valores culturais, este ano fazemos o Toré Junino que há anos deixamos de fazer, veja :  http://kxnhenety.blogspot.com.br/2013/06/i-tore-junino-kariri-xoco.html  ,  http://kxnhenety.blogspot.com.br/2013/06/i-tore-junino-kariri-xoco-parte-2.html   , vamos continuar no ano que vem fazendo o cantos e danças do Toré porque são nossas tradições.

Nhenety Kariri-Xocó

CAMINHO DE TRADIÇÃO

Caminho no Inverno









Pessoas, carros e motos no caminho
Descendo a ladeira das cajazeiras
  Antes de chegar os colonizadores no Baixo São Francisco cada povo indígena tinha sua aldeia em ambas as margens do rio, cada etnia com seu território, lugar das roças, ponto das caçadas, local dos peixes, florestas inteiras cobriam vasta região.  Na própria aldeia que moravam era também  espaço de suas tradições, para haver ritual o pajé marcava pela lua, onde todos ficavam sabendo a data certa.  Quando vieram os bandeirantes e jesuítas tudo mudou, índios massacrados, outros reduzidos em aldeamentos  jesuítico ou missões  religiosas , aqui os sobreviventes dessas grupos indígenas foram reunidos em Urubu-Mirim como fora chamada a nossa aldeia pelos padres.  Os indígenas foram obrigados a conhecer  a  religião Cristã, aprender nova língua, com cultura diferente das nossas .  Nós não aceitamos essa condição de extermínio, para darmos continuidade nossas raízes ancestrais, praticamos nossos rituais do Ouricuri às escondidas.  As vezes os padres jesuítas saiam para outras aldeias distantes rio acima ou a baixo, neste ínterim fugimos momentaneamente para as matas longe dos olhares dos colonizadores, fazemos nossas caminhadas para praticarmos nossos  rituais as pressas,   dando a entender  a eles que deixamos nossos costumes.  Terminando as proibições dos jesuítas e diretores da aldeia contra os indígenas, foi possível fazer nosso ritual mais sossegado, mas continuamos com nossas tradições longe dos brancos. Assim ficamos com duas aldeias, uma para morada perto do rio vizinho a cidade, e outra aldeia no interior da floresta conhecida como Ouricuri. Ficou a tradição de fazer a caminhada da aldeia na margem do rio para a Mata do Ouricuri que dar aproximadamente uma légua de distancia. O caminho de chão batido, no verão fica empoeirado, no inverno muita lama ficando as marcas de nossas pegadas.  Caminhando no período chuvoso junto com ao Cacique Otávio na estrada tradicional, ele dizia  “ este é o rastro de Miguel Suíra estar vendo o pezão dele, aquele outro me parece a marca do pé de Maria Tinga porque  é estrito bem fininho “. Em outra ocasião caminhando com minha mãe Maria de Lourdes ela identificou a marca do pé meu Pai Alírio que era seu esposo, dizendo seu pai vai aí na nossa frente olha o rastro dele , faz tempo que saiu terá que pegar peixe no rio, eu repliquei como a senhora sabe que essa marca no chão é do pé dele, ela respondeu meu filho já conheço seu pai o pé dele é achatado sambeto. Naquele tempo isso era possível nosso povo era em menor número, hoje fica difícil identificar o rastro de alguém no caminho. Agora estar mudando os rastros do caminho, começou com os pés, depois apareceu o cavalo, a carroça, bicicleta, moto e muitos automóveis.


Nhenety Kariri-Xocó
       

HISTORIA NA CASA GRANDE

    Na retomada da Fazenda Modelo conhecida por Sementeira em 1978,  os índios Kariri-Xocó ocuparam as residências disponíveis no local, funcionários da CODEVASF foram retirados da terra indígena.  A população indígena foi distribuída nos casarões antigos, galpões, báia, curral, casas , escola outras famílias não tendo onde morar fizeram barracas. Veja no blog as casas ,   http://kxnhenety.blogspot.com.br/2013/02/antigas-casas-kariri-xoco.html   , Entre as construções  que encontramos no lugar: Casa Grande , Casarão Velho, Escola, Galpão da Antiga Fábrica de Arroz,  Galpão da Oficina Mecânica, Baia, Cocheira, Igrejinha, Casas dos Funcionários. Nas  residências ficaram muitas famílias morando , o momento era de mudança para construção da Nova Aldeia, cada casa ocupada tem sua história para ser contada pelos seu moradores, estes espaços residenciais tornaram-se  unidades social  da comunidade naquele período de luta.  A Casa Grande ficou ocupada por 22 famílias agora mencionadas :  Alírio e Maria de Lourdes,  Ivete e Antonio Cruz, Luiza Tenório e Família, Arnaldo e Chica, Zé Brinquinho e Especília, Helena Tenório e Lucineide, Mané Galo e Ianí, Antonio Tenório e Landa, Gena e Zeire, Dinalva e Juarez,  Zé Tenório e Givalda, Gergina e Família, Gringo e Antonia, Maria Vermelha e Miguel, Cacique Cícero e Anália , Zé Gatinho e Eurides, Paulo Nunes e Maria Véia,  Zé Taré e Antonia ,temos ainda pessoas que eram consideradas como família porque tinham filhos, Zefina, Vera, Roselita fechando com Euda. Esta casa era bastante animada, os mais velhos contavam histórias, os adultos saiam para pescar nas lagoas repletas de peixes, no alpendre nos fundos da residência muitos fogos  de lenha acessos, tudo ali era repartido entre todos. Quando veio a enchente de 1979 ficamos ilhados , os meninos saiam para pegar mangas que tinha em abundância na margem do Rio São Francisco, chegou alimento mandado pelo governo amenizou a fome por uns dias. Os Jovens estudavam no Ginásio São Francisco na cidade, foi alugada uma canoa para atravessar os alunos. Quando chegamos da aula, nossos colegas  Lenoir, Zé Birrinha, Dijalma e eu Zé Nunes fazemos mingau de milho com leite em pó nosso jantar . Logo após as águas baixar apareceu uma superpopulação de preás ( pequeno roedores ) comestíveis nos arredores da Casa Grande, Davi e meu irmão Antonio fizeram aratacas pegamos bastantes , nossas mães tirava o couro do bicho era um prato favorito. O alpendre circundava toda a casa, a noite armava as redes de dormir, outros forrava lençóis no piso, esteiras, tapetes. Lembro que nos anos de 1980 Jaime trouxe um toca disco e dançamos os sucessos  da música popular brasileira. Na vitória da conquista da terra foi feito um Toré na Casa Grande, Antonio Tinga puxou o canto, muito emocionante, ver todas as pessoas das outras casas chegar para comemorar. Chegou o projeto de construção de 110 casas em 1981, cada família deveria bater 10.000 tijolos, queimar e entrar com a mão de obra, recebia do governo 10 sacos de cimento, madeira e telha.  As famílias que moraram na Casa Grande no começo  foi de 1978 a 1981. Em 1982 foi concluída a construção das casas,as famílias receberam suas habitações,  a Casa Grande ficou como sede do Posto Indígena Kariri-Xocó até 2003 quando foi transferido para a cidade de Porto Real do Colégio. Após a desativação do Posto Indígena na área outras famílias ocupam  a Casa Grande até chegar outro projeto de casas.  As famílias que se encontram morando na Casa Grande atualmente: Esso e Rita, Vânio e  Cil , Galego e Esposa, Mudinha e Esposa, Zé Van e Esposa, Vânia de Zeire e Esposo, Ara e filhos. Esta casa sempre acolheu as famílias desamparadas de nossa aldeia, ainda hoje tem gente morando fazendo novas histórias .          

Nhenety Kariri-Xocó.