domingo, 28 de novembro de 2010

GUARDIAO DA TRADICAO ORAL

Nunes Nhenety
Nunes é das beiradas do rio de São Francisco. Passei um bom tempo conversando com ele e tentando conseguir que assentasse suas lembranças num pedaço de papel. Hoje em dia, ele escreve e eu apenas digito. Devo dizer, que as reticências no texto são minhas e são coisas de cabeça seca. Por outro lado, sugeri alguns tópicos, como poderia acontecer com outro e qualquer amigo.
Nunes é considerado como espécie de guardião da história das tradições Kariri-Xocó. Ele lê muito e guarda grande parte do que é escrito sobre o seu e outros povos; anota o que dizem os mais velhos. No seu texto, é fácil verificar um pé na raiz e outro nas conversas dos cabeça seca.
No mais, gostaria de referir-me a uma fala de Maria de Lurdes, branca, casada com um Karapotó, gente com a qual Nunes tem relação de família. Na verdade, a Lurdes constrói um conceito de história que tem sua expressão, também, no texto do Nunes e que sigo assim, assim, assim na tentativa de historiar sobre os índios das Alagoas: "A história dos Karapotó é uma história. Uma história bonita e interessante. Já é de descendentes, bisavós, tataravós, de pai, de mãe... Vai passando de geração em geração. E cada um vai contando: meu avô me contava assim, assim, assim... Meu bisavô me contava assim, assim, assim... Meu pai me contava assim, assim, assim... e cada um vai contando" .

Nhenety Kariri-Xoco 

Luiz Sávio de Almeida é professor da Univerisidade Federal de Alagoas.

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141999000300005&script=sci_arttext

 

A RUA UMA ALDEIA

Rua dos Índios casas de  palha
   Eis a aldeia segundo a tradição dos velhos: casas de taipa cobertas de palha, rua de terra batida, arvoredos de pés de ingazeiras em cujas sombras existiam pilões, também pontos de reuniões, conversas. Meninos nus, descalços, brincando; índias trabalhando na cerâmica utilitária, homens chegando da pescaria.
Nesse meio foram criados meus pais; num sentimento de amor cresceram juntos, com a perspectiva de fundar uma nova família. Em 1941 casaram-se Maria de Lurdes e Alírio, meus pais. Numa casinha de palha também foram morar: uma cama de vara, fogo de lenha no chão, vasilhames de barro, potes e pratos, todos feitos pelas mãos de minha mãe, completavam a arrumação, juntamente com os artifícios de pesca trabalhados por meu pai: jereré, kuvú, tarrafa e puçá.
A família é a unidade do povo, mas a riqueza da comunidade não é o poder econômico do casal. Grande número de filhos constitui a maior fortuna e respeito na posição social. Na reunião da comunidade, aquele que tem muita parentela é ouvido quando fala, considerado e admirado por todos. Meus pais tiveram dez filhos, mas por destino da vida só sete sobreviveram.

Nhenety Kariri-Xoco 

APRENDIZADO

 
Pé de Genipapo na Nova Casa

     Meu avô paterno havia morrido, mesmo muito antes de eu nascer; o avô materno morreu quando eu só tinha três anos. Otávio foi para mim como o avô que conheci e me ensinou, antes mesmo de freqüentar a escola indígena que ficava ao lado da minha casa. Aprendi que devemos imitar os mais velhos para a cultura continuar; ouvir as histórias para um dia contar, fazer arcos, flechas, o jereré.
Quando eu ia a sua casa ou ele ia na minha, eu perguntava sobre as coisas. O jenipapo... O fruto maduro serve para comer... Isso eu fiquei sabendo pela minha mãe, mas o Otávio me ensinou que o fruto verde do jenipapo ralado, espremido o bagaço, dava uma tinta escura preta azulada com que os antigos se pintavam. O caldo escorrido era colocado no fogo numa panela de barro só para mornar; tirava o caldo do fogo e deixava de molho uma noite: pronto para ser usado no corpo. Uma vez fiz para aprender; passaram-se muitos dias para sair a tintura do corpo. Só saiu com o passar do tempo, não continuando a renovar os traços.
Como aconteceu em Sergipe com os Xocó, as aldeias indígenas foram extintas legalmente em Alagoas no ano de 1873. A expropriação levou, ao longo dos anos, a população indígena a se fixar em Porto Real do Colégio, numa rua da periferia da cidade, perpendicular ao rio São Francisco. A aldeia dos índios situada na rua da cidade de Porto Real do Colégio foi o cenário da história da vida em comunidade de nosso povo sofrido, junto com o Ouricuri, unindo a todos na preservação de nossas crenças, costumes e cultura.

Nhenety Kariri-Xoco

LEMBRANÇAS

 
Antiga casa de taipa da família de Nhenety
    A lembrança mais remota que tenho no entendimento é de quando eu era criança, chorando numa rede. Mamãe pegou-me nos braços e me colocou no chão: saí caminhando, começava a brincar. Outra vez, ainda me lembro, foi na casa de meu avô Euclides: ele estava deitado e doente. Eu ficava no quarto e ele se assentava. Minha avó Pureza lhe dava mingau no prato e ele começava a comer. No corredor da casa tinha uma canoa de pesca que estava encostada que o pescador não mais usava: remo, cuia e uma tarrafa. Quando Euclides morreu em 1966, eu tinha três anos de idade.

A casa onde eu morava já era de telha e taipa, bem vizinha à nossa escola da aldeia, construída desde o tempo do SPI; na frente, do outro lado da rua, era a casa de Analbertino, homem já velho na idade; era filho de Inocêncio Pires, tio de minha avó Júlia. Encostado, morava o cacique Otávio, irmão do pajé Francisquinho. No canto do quintal existia uma ingazeira, em cuja sombra eu brincava com meus dois irmãos: Lurdinha e Antônio, ambos surdos e mudos.
Segundo história de Antônio Nunes, irmão de meu pai, embaixo dessa velha Ingazeira, em 1944, Otávio foi escolhido pela comunidade indígena para ser o cacique tribal. Ainda no quintal, existia um velho pé de jenipapo no qual pousavam pássaros: vim-vim, bem-te-vi, assanhaço, pintassilgo, entre outros. Os meus pais foram, na minha infância, os primeiros educadores na formação de minha conduta perante os mais velhos, comunidade indígena e família. Mas na minha vida de criança, o cacique Otávio Queiroz Nidé instruiu-me no conhecimento tradicional de nosso povo indígena, cultura, costumes e organização tribal.


Nhenety Kariri-Xoco

NASCIMENTO


   Minha mãe teve uma gravidez difícil. Não comia muito bem, tinha fastio e enjoava; num alguidar com farinha, às vezes beliscava moqueca de peixe miúdo, mingau de milho ralado. O alimento preferido de minha mãe gestante era a água do rio São Francisco quando descia o barranco. "Água de pote fedia nas ventas", ela dizia; o rio era cheiroso quando ela vinha beber, chegava na beiradinha e ficava saciada.
Nessa mesma época, estava para chegar um irmão de minha mãe chamado Jurandir, que foi embora há muitos anos para Manaus, no Amazonas. Era primeiro tenente das Forças Armadas; não sei dizer de qual polícia: Marinha, Exército ou Aeronáutica. O dia em que ele chegou de viagem, foi o dia em que nasci: aos 10 de setembro de 1963. Trouxe vários presentes para toda a família, inclusive um enxoval para recém-nascido, para uma irmã gestante ou que estivesse parida. No momento, fui eu o tal escolhido.
A parteira do caso foi a velha Nenê, assim conhecida por todos de Colégio. O menino que nascera era magrinho, dizia o povo que chegava em visita à mamãe na aldeia arruada.

Nhenety Kariri-Xoco 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

EQUILIBRIO JUSTO

 
 
Lagoa equilibrio ambiental
  O Planeta Terra passa por uma grande transformação, pelo que ja foi retirado dela sem repor as perdas materiais, da vida, extinção de espécies vegetais, animais, empobrecimento dos povos habitantes deste mundo. Os governantes dos paises desde a antiguidade, criam Leis com muitos Direitos nas riquesas da Terra  poucos Deveres para com Distribuição igualitária de responsabilidade do usso.Assim o Desequilíbrio será tamanho que comprometerá as futuras gerações pelo que foi destruido para enrequecimento de alguns e emprobrecimento de bilhões de pessoas. As Leis criadas para ser justa teria que ser assim : " Cada Direito vem com um Dever ", porque se houver a igualdade em ambos teremos o " Equilíbrio Justo ". So poderemos gastar o quanto podemos consumir, não precisa acumular a matéria prima, a Terra tem a quantidade adequada a cada geração, podemos entregar o Planeta em condições habitaveis e sustentáveis para as outras gerações que virão .

Nhenety Kariri-Xocó .

quinta-feira, 29 de julho de 2010

REDE DE RELAÇÕES

     Sou Contador de História da Tribo Kariri-Xoco, membro Gestor da Rede Indios Online do Brasil , fico no Telecentro de Inclusão Digital Indios Online Kariri-Xoco, do municipio de Porto Real do Colégio, Alagoas, Coordenador das Oficinas do Ponto de Cultura Horizonte Circular, da Rede Alagoana de Pontos de Cultura. Nós com os jovens da Aldeia indigena estamos com uma Iniciativa do Memoria Viva Kariri-Xoco para registrar a sabedoria ancestral, das histórias, medicina tradicional, cantos, danças, pintura corporal, cerâmica utilitária das mulheres da comunidade, onde deveremos proteger nosso patrimônio cultural, na Web num blog acessivel a todos. Entre estas ações, de sites, blogs, E-mail, Twitter, nas relaçoes por onde passei em defesa da cultura, meio ambiente, gostaria de interligar as informações numa rede comunicativa   global para facilitar a resoluções dos problemas locais.
              Nhenety Kariri-Xoco