domingo, 31 de dezembro de 2023

A ETIMOLOGIA DE TEREJÊ


 Um nome que foi mencionado pelo pajé Suira entre os Kariri-Xocó foi 'mõteregê', um nome que imediatamente se conecta com o nome que os Wakonã de Antunes chamam os indígenas que é ateregin, e por último parece também estar conectado com o Natú zi de zitók 'estrangeiro (não-indígena)', ao que parece, estas três divisões dessa nação se consideravam o que venho chamando de Terejê, mas o que exatamente significa essa palavra ?


 Primeiro de tudo, darei alguns exemplos de nomenclatura dos povos nativos do Brasil, vejam por exemplo o nome do povo Mebengokré, que são o 'povo do buraco d'água', ou os Krenák que se dividiam de forma topográfica com nomes como:


Nak-pie             Terra de trabalho

Nak-tuŋ             Terra do formigueiro

Nak-rehé            Terra bonita

Ngut-krak           Rocha da tartaruga

Minyã-yirúgn      Água branca


 O que estou tentando exemplificar é a forma como os povos do Brasil se autodenominam, para que assim eu possa demonstrar o significado que eu e Nhenety desvendamos do Terejê. Ao que parece, os Terejê se identificavam com um conceito de reincarnação do espírito através de um processo que ocorre após a morte do indivíduo, tal indivíduo era posto em uma igacaba, um vasilhame de barro, em posição fetal, imitando a posição de um bebê no ventre para que seu renascimento seja alcançado, cremos que o barro tinha grande importância para esses povos, visto que seu nome talvez signifique TERE-JÊ 'aumentar/procriar/criar barro', como TERE sendo cognato de:


Xavante: tébré 'aumentar, procriar, criar'


Aproveito para fazer uma descrição sobre os povos Terejê, no momento, sem auxílio da arqueologia não temos como inferir muito sobre migrações e possíveis interações com outros povos, todos os dados aqui usados são derivados de um processo de comparação linguística. Começo dizendo que podemos inferir que estes grupos se dividiam em: clãs e nações menores partes de uma nação maior, normalmente isso era baseado no sistema Jê binário de avós e filhos, mas pelos visto também se estendia para irmãos como é visto com os Wakonã, portanto temos três grandes nações Terejê:


Xocó

Os Xocós, também tendo seu nome registrado históricamente como Shocó, Xokó, Chocó, Chocoz, Ciocó, Ceocose, são o agrupamento dos 'filhos' ou 'descendentes', sua língua é a com mais registros dos aspectos diários e comuns dos povos Terejê, auxiliando-nos no desenvolvimento das composições e reconstruções dos morfemas das outras línguas constituíntes.


Natú

O Natú é o agrupamento Terejê dos 'avós' ou 'ancestrais' em relação aos outros não possui de forma independente grande registro de seu vocabulário, mas em compensação, podemos confirmar através do catecismo de Mamiani que foram eles quem interagiram e se fundiram com os Kipeá, assim confirmando que boa parte do vocábulo emprestado (da quinta declinação) talvez tenha origem direta do Natú, dobrando ou até mesmo triplicando o número de palavras registradas do Natú e confirmando sua evolução fonética, que também ocorreu no Wakonã, chamada de alçamento vocálico, além de outros desenvolvimentos próprio da como vozeamento intervocálico e a tradução do nome de seu clã mais forte (Peagaxinã) para o nome dos Kariri de Mamiani (Kipeá).


Wakonã


Os Wakonã são o agrupamento dos 'sogros' (ou possivelmente uma divisão diferente dos 'filhos'), também tendo seu nome registrado como Iaconã, Aconã, Acunã, Wakoná e Inakaná. Graças aos registros de Antunes (1973), fomos capaz de reconstruir todo o paradigma de prefixos pronominais do Terejê, e com isso, descobrir a relação do Terejê com os povos Cerratenses do Tronco Macro-Jê.


Paradigma Wakonã:


ba- 'eu, meu, minha'

ka- 'tu, teu, tua'

in- 'ele, ela, dele, dela'



BIBLIOGRAFIA: 



HISTÓRICO GENTÍLICO DE PORTO REALDOCOLÉGIO-AL, ..."as diferentes tribos de índios, Tupinambás, Carapotas, Aconãs e Cariris, habitavam a região, vivendo da caça, da pesca e da lavoura",...( PERFIL MUNICIPAL, 2018: pág. 8 ).


ETNIAS MENORES KARIRI-XOCÓ, A Tribo Kariri-Xocó é composta de outras etnias , menores, mas que integram essa tribo. São os Natu, Pankararu, Fulni-ô, Tingui-Botó e Karapotó. ( NASCIMENTO & RAMOS 2002:24 ) .


NASCIMENTO, Marco Tromboni de Souza e RAMOS , Luciana Maria de . Diário Oficial do Estado de Alagoas : Resumo do Relatório Circunstanciado de Reestudo e Delimitação da Terra Indígena Kariri-Xocó . Maceió 05 de fevereiro de 2002.


PERFIL MUNICIPAL. Ano 4, nº 4 (2013),

Maceió: Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio, 2018.


ANTUNES, Clóvis. 1973. Wakona-Kariri-Xukuru: Aspectos Sócio-Antropológicos dos Remanescentes Indígenas de Alagoas. Maceió, Imprensa Universitária – UFAL.


RODRIGUES, A. D. O artigo e os numerais na língua kiriri, vocabulário português-kiriri e kiriri-português. Separata dos Arquivos do Museu Paranaense, Curitiba, v. II, art. X


LOUKOTKA, Čestmír. Documents et vocabulaires inédits de langues et de dialectes Sud-Américains. Journal de la Société des Américanistes, Nanterre, Tome 52, p.7-60, 1963.




Autor: Suã Ari Llusan 





SEGREDO DAS FLECHAS MORTAIS

 

Uma das palavras que não encontrei ligação com nenhuma outra língua é Veneno (Taa / Tá).


Aw-taa - Antiveneno.

Em suma, antídoto.


Era muito importante para nós sabermos os aw-taawa dos taawa das flechas inimigas. Como não há mais ataques indígenas entre si nem dos irmãos contra os invasores com uma certa frequência, muitos povos indígenas não envenenam mais suas flechas e a medicina não conhece mais os antídotos contra esses venenos. Ou seja, um povo raiz e que ainda tem o conhecimento do envenenamento das flechas, torna-se um grande perigo pra sociedade, em especial quando tem suas terras invadidas, pois há veneno que um simples arranhão é o suficiente para que o indivíduo faça a cerimônia de despedida familiar. A medicina nada pode fazer contra alguns venenos, pois os médicos não conhecem os antídotos e não conseguem parar a paralisação progressiva do sistema nervoso, o que certamente irá parar de forma irreversível o coração.



Autor da matéria: Klenn Kascher do Povo 

Kan'xi





ETIMOLOGIA DE DI 'SER DADO, DAR'

 

A palavra parece ser cognata do:


Xavante: dzari 'dar de graça, oferecer ajuda com comida'


 Isso indica que o som de *j herdado do Proto-Cerratense varia alofonicamente entre ñ ~ y ~ dz/z ~ ts/s ~ d, bem semelhante ao que é visto no Xerente. Como o verbo já existe nas línguas Kariri, reconstruo para o Terejê como:


Xocó: dza, da

Natú: zì, dì

Wakonã: djá, dá




Autor: Suã Ari Llusan 





ETIMOLOGIA DE PANADÔ 'CÍLIOS' DA LÍNGUA KATEMBRI

 

A palavra para cílios do Katembri é interessante, pois ela possui uma estrutura muito semelhante a outra encontrada no Kariri, especificamente na palavra WANADZI/WARANDZI 'remédio', eu suspeito que PANA e WANA sejam a mesma palavra, mas o mais interessante aqui é que PANA parece ser uma versão anterior ao WANA.


 Eu discuti isso na publicação ETIMOLOGIA DE DZIKLOKU 'ESTAR CHEIROSO', wana significado 'folha, erva' e é cognata do *pana 'folha' do Proto-Aruaque, boa parte dos W iniciais do Kariri derivam de antigos P, portanto é possível notar que PANA virou WANA, a palavra provavelmente deriva do Terejê, visto que uma das palavras DÔ que a compõe provavelmente deriva do Proto-Cerratense *ndôm 'olho', portanto:


PANA-DÔ 'folha do olho' > 'cílios'


Reconstruído de volta para as outras línguas como:


Proto-Kariri pana-dô ~ wana-dô 'cílios'


Dz.: wanaddo, panaddo

Kp.: wanadò, panadò

Sp.: wanattó, panattó

Km.: wanaddò, panaddò

Kt.: panadô

KX.: wanadô, panadô

Pp.: wanadô, panadô

Dz-Tx.: wanado, panado

Kb.: wanadô, panadô




Autor: Suã Ari Llusan 





UM FELIZ ANO NOVO / KAWKÃ WIMANHEM IBATTHY KRITÃ / SA THALA WIRO KRITAN ABA


Neste atravessar do ano cristão, desejamos de coração que todos sejam agraciados de bençãos, prosperidade, alegria e paz, que a árvore de seu esforço dê frutos.


 Esse ano foi um ano de grande progresso nos estudos das línguas Kariri, com a adição de um grupo linguístico importante na história destes, que são os Terejê, tenho esperanças de que o ano de 2024 será um de resultados que virão em dobro em comparação a este, aproveito para afirmar minha intenção de iniciar a composição de gramáticas e dicionários das línguas Terejê e Kariri, além de outras publicações que planejo produzir, enfim, apenas gostaria de passar essa mensagem curta, espero que tenham todos uma ótima celebração de fim de ano, aproveito e trago a sugestão de tradução que eu e Nhenety fizemos para o Ano Novo Cristão e como dizer Feliz Ano Novo do calendário gregoriano:



Ano Novo Gregoriano (lit.: 'o atravessar da estrela cristã')


Dz.: wimanhem ibatthi kritam

Kp.: wimaehae ibatì critã

Sp.: mingmahá ibattí kritáng

Km.: mingmaihài ibattì kritàng

Kt.: viméhé udetikimen karai

KX.: wimanhem ibatthy kritã, wimaehae ibatthy kritã, thala wiro kritan

Pp.: siwimaehaetê ipanyé karikyá

Dz-Tx.: wimanhem ibati kritam

Kb.: hiwimêhêtê ipanyé charichá



Feliz Ano Novo


Dz.: uddhe ploh wimanhem ibatthi kritam añey

Kp.: use pròh wimaehae ibatì critã eyaì

Sp.: uséi pló mingmahá ibattí kritáng enyaí

Km.: usà prò mingmaihài ibattì kritàng anyaì

Kt.: sisi pró viméhé udetikimen karai añaí

KX.: kawkã wimanhem ibatthy kritã eyaí, sa thala wiro kritan aba

Pp.: usê siwimaehaetê ipanyé karikyá aeyaí

Dz-Tx.: uddhe wimanhem ibati kritam añei

Kb.: uhê hiwimêhêtê ipanyé charichá êyaí





Autor: Suã Ari Llusan 





ETIMOLOGIA DE TUYÓ 'ZOMBAR'


A palavra TUYÓ é um composto bissilábico de duas palavras Terejê, no caso do Kipeá, do Peagaxinã (Natú):


TU 'brincar, brincadeira', cognato do:


Xavante: to 'brincadeira, jogo, alegria'


YÓ 'falar, dizer', cognato do:


Xavante: nharĩ 'dizer, falar'


Portanto TU-YÓ 'falar de brincadeira, zombar', é cognato direto do Kipeá ITÙ 'ser agradável' e do Dzubukuá TUITHU 'alegrar-se', portanto:


Terejê


Xocó: tu, thu

Natú: tu, thu, itu

Wakonã: tú, itú



Proto-Kariri *yâ 'falar, dizer'


Dz: yo, ño

Kp: yò

Sp.: yó, nyó

Km.: yà, nyà

Kt.: yó, ñó

KX.: yó, nhó

Pp.: yó

Dz-Tx.: yo, ño

Kb.: yó




Autor: Suã Ari Llusan 





sábado, 30 de dezembro de 2023

A FUNÇÃO DA PARTÍCULA AIBŶ E SUA PRESENÇA NO DZUBUKUÁ


A partícula aibŷ é usada somente uma vez em um único exemplo da gramática de Mamiani:


dzueicò saibŷ bodzò 'necessito do machado'


Mamiani apenas deixa implícito que ele participa da segunda declinação (porquê começa com a vogal A) e que sua função é surgir depois do verbo EICÒ 'ter mister, necessitar', ele é conjugado da seguinte forma no Kipeá:


hiaibŷ = de mim

eyaibŷ = de ti

saibŷ = dele/dela

hiaibŷdé = de nós, sem incluir você

kaibŷ ou kaibŷá = de nós todos

eyaibŷá = de vós

saibŷá = deles/delas


O Dzubukuá descrito por Queiroz não explica a presença dessa partícula, mas hoje ao pesquisar diretamente por ela, encontrei evidência clara de sua presença e respeito pela regra estabelecida na gramática de Mamiani:


Katecismo Indico de Bernardo de Nantes, pág. 96


4. wangänle clubwj idce, dadzurio enna, dzweco han y bwj han y annehiej 


Português


4. Senhor, sou pobre: necessito de tudo: Soccorreime : tenho necessidade, de que ponhais em mim os vossos olhos


dzweco han y bwj, ou na ortografia nova dzueko hanybui é claramente cognato do Kipeá dzueicò saibŷ, tanto na conjugação quanto na estrutura. No Dzubukuá se conjugaria:


hiaibui = de mim

añaibui = de ti

hanybui = dele/dela

hiaibuidde = de nós, sem incluir você

kaibuia = de nós todos

añaibuia = de vós

hanybuia = deles/delas


BŶ e BWJ não parecem ter uma função prevalente dentro das línguas Kariri, sendo usando somente na presença desse verbo, é possível que tenha entrado dentro desta família através de alguma língua do ramo Terejê, visto que existe no Akuwẽ uma partícula com função dativa idêntica:


Xavante: ba 'a, para'


Reconstruo para as outras línguas como:


Proto-Kariri: *by ~ *ai-by 'para, a, em direção de'


Dz.: bui, aibui

Kp.: bŷ, aibŷ

Sp.: púi, aipúi

Km.: pùi, aipùi

Kt.: bi, aibi

KX.: by, aiby

Pp.: bý, aibý

Dz-Tx.: bwi, aibwi

Kb.: bý, aibý


Terejê

Xocó: ba, -ba

Natú: ba, by, -ba, -by

Wakonã: bá, -bá




Autor: Suã Ari Llusan