segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O SIGNIFICADO DE CRAYOTE 'CACIMBA' DO KIPEÁ


Este texto será curto, pois o significado é bem direto, CRA significa 'cavar' e YO 'muito', enquanto TE é o nominalizador, transformando a palavra CRA-YO-TE 'coisa de cavar muito', o que bate diretamente como significado de *cacimba*:


1. buraco que se cava até atingir um lençol de água subterrâneo; poço, cisterna.



Reconstruo-o para os outros dialetos como:


Dz.: klaighâthe

Sp.: klayeithé

Km.: klayattè, krayattè

Kt.: krayathe

KX.: krayâthé, klayâthé

Pp.: krayotê



Autor da matéria: Ari Loussant 



A PALAVRA PARA COSTELA E UM NEOLOGISMO DERIVADO DELA


 Ricky e eu estamos estudando o catecismo há alguns meses, uma palavra que nos intrigou foi a palavra costela *imesu* do Kipeá, Ricky sugeriu que isso fosse um circunfixo entre I- e -SU, porém eu sugeri que fosse um composto entre I-ME 'osso dele(a)' + SU 'costela, peito(?), costa(?)', sugiro os significados de 'peito' e 'costa' devido à posição de onde está o osso e o fato de o cognato Dzubukuá *immedhuy* surgir com o significado de costa, assim como os cognatos do Sapuyá (missih) e Kamurú (missih) surgirem com este significado, substituíndo a palavra *woro* do norte (possivelmente um desenvolvimento nativo do Kipeá ?)


 Com isso dito, voltando ao que Ricky falou, na época que ele pensava que a palavra consistia em um circunfixo, ele sugeriu que este fosse usado como uma forma de construir palavras coletivas/conjuntos de alguma coisa, mesmo com a mudança na teoria sobre o significado da palavra, ambos concordamos que era uma ótima ideia ter um sufixo coletivizador, portanto decidimos usar apenas -SU/-DHUY/-SIH que provavelmente significa sozinho 'costela' como um sufixo coletivizador, devido ao fato de que costelas normalmente vem em grupos, aqui estão alguns exemplos:


Dz.: mûzedhû = 'cardume, lit.: coletivo de peixe'


Kp.: yacàmuràsù = 'alcateia, lit.: coletivo de lobo'


Sp.: muysí = 'biblioteca, arquivo, lit.: coletivo de livro'


Km.: pemuiysì = 'molho de chaves, lit.: coletivo de chave'


Kt.: krazósi = 'manada de bois/vacas, lit.: coletivo de gado'


KX.: murasû, muradhû 'vara de porcos, lit.: coletivo de porco'


Pp.: durisú 'enxame de abelhas, lit.: coletivo de abelha'


Como demonstrei, este sufixo pode ser usado para denotar o coletivo de animais e objetos, mas também pode ser usado para coleções de qualquer coisa, digamos por exemplo uma 'coleção de conhecimento' fosse a tradução para 'enciclopédia' ou se traduzíssemos nomes de animais como centopeias como Dz.: bûdhû "coletivo/coleção de pés" ou polvos como Kp.: crusù "coletivo/coleção de tentáculos', sendo que cru 'tentáculo' deriva de cru 'rabo' e por aí vai.



Autor da matéria: Ari Loussant


domingo, 12 de fevereiro de 2023

PALAVRAS NOVAS ENCONTRADAS NO CATECISMO DE MAMIANI


 Estava buscando por palavras novas e me deparei com algumas que não vi no vocabulário de Rodrigues:


1) PENÃ 'dividir em pedaços' (4ª declinação), este surge na página 122 do catecismo:


"Mo sipenã becubecu no Waré"


"Quando o padre divide a hóstia em pedaços"


 Este verbo parece ser um composto entre PE "quebrar/dividir em pedaços" e NÃ, cujo parece uma versão nasalizada de (U)NA 'repartir' caso não seja um verbo independente deste.


2) CURÉ 'botar para fora' (sem declinação, provavelmente a 4ª), este surge na página 124 do catecismo:


"...curébae bupí cununú..."


"...& botar para fora um pouco a língua..."


RE se parece bastante com a raiz de PERE 'sair', já CU está modificando seu significado, possivelmente significa 'expor'


3) MAEHAE 'engolir' (4ª declinação), este surge na página 124 do catecismo


"Doró simaehae cuná"


"& Então engolila..."


 É a mesma palavra que MAEHAE 'mais' e é cognata do Dzubukuá manhem (mâmhâm) que também adquiriu um sentido além de 'mais', no caso do Dzubukuá o significado mudou para 'passar', é possível ver a conexão semântica se teorizar que a ponte semântica para 'engolir' e 'passar' foi 'atravessar' ou literalmente 'mais-ar, fazer/causar/ser mais'.


Reconstruo todas essas palavras da seguinte forma:


1) 'dividir em pedaços' *pe-na (4ª decl)


Dz.: pena

Kp.: penã

Sp.: pená

Km.: penà

Kt.: pena

KX.: pená

Pp.: pêná


2) 'quebrar' *pe ~ pʰe


Dz.: pe, phe

Kp.: pè

Sp.: pé, phé

Km.: pè, ppè

Kt.: pe, phe

KX.: pé, phé

Pp.: pê


3) 'botar para fora' *ku-ɾe ~ ku-le ~ *kʰu-ɾe ~ kʰu-le (recomendo 4ª decl. para todos)


Dz.: kule, kure, khule, khure

Kp.: curè

Sp.: kulé, kuré, khulé, khuré

Km.: kulè, kurè, kkulè, kkurè

Kt.: kure, khure

KX.: kulé, kuré, khulé, khuré

Pp.: kurê


4) 'expôr' *ku ~ *kʰu


Dz.: ku, khu

Kp.: cù

Sp.: kú, khú

Km.: kù, kkù

Kt.: ku, khu

KX.: kú, khú

Pp.: kú


e caso *re* não derive de PERE:


5) 'expor, mostrar' *ɾe ~ *le


Dz.: le, re

Kp.: rè

Sp.: lé, ré

Km.: lè, rè

Kt.: re

KX.: lé, ré

Pp.: rê



Autor da matéria: Ari Loussant


PALAVRA RINE 'CARNE SALGADA'


 RINE é como várias outras palavras dessa língua um composto, formado pelas sílabas RI e NE, o significado independente dessas sílabas vem sido um pouco trabalhoso, aqui estão minhas hipóteses


A ordem do Kariri é normalmente similar ao português, onde os modificadores vem depois dos modificados, então a expectativa é de que RI signifique 'carne' e NE 'sal, salgado', no entanto temos as raizes *na* e *ne* no Kamurú e Sapuyá nas frases 'assa carnem'


Kamurú: assa carnem — toppo gratzö(na).

Sapuyá: assa carnem — thabu(neh) gratzo. 


 O que me faz suspeitar que NE de RINE é que signifique carne e RI signifique salgado, porém isso vai contra a regra dos modificadores. Existem exceções como POKU que segue uma ordem similar ao inglês, mas a maioria das palavras que descobri até agora seguem a ordem portuguesa, por isso sugiro uma nova interpretação.


NE significa 'carne' e parece ser um cognato distante *ñ-ĩt ‘carne’ do Proto-Macro-Jê, duvido que seja um empréstimo devido à falta de nasalização da vogal (como em hẽ/hem que vem do PMJ *pῖm) em todos os exemplos dados, além da mudança vocálica de e -> a no Kamurú (o que pode pôr mais dúvidas ainda sobre a origem dessa palavra).


RI não tem outros cognatos que eu conheça nem no Karib, Boróro, Nadahup, Tupi ou Macro-Jê, o que implica que é uma inovação da família Kariri ou um empréstimo de uma língua desconhecida, junto com NE, teriam ambos significado somente 'carne', mas ambas as raízes adquiriram o significado específico de 'carne salgada', diferenciando-se do termo genérico para 'carne' ADYE/AINDHE, é difícil dizer se essa substituição ocorreu nos outros dialetos, já que RINE surge exclusivamente no Kipeá.


 Irei reconstruir essas duas palavras com seus significados anteriores e os novos, ambas serviram de sinônimos para ADJE/AINDHE, devo avisar que devido ao rotacismo do Kipeá, a raiz RI será reconstruída duas vezes para compensar a falta de conhecimento de sua pronúncia verdadeira, NE será reconstruída tanto como um *e quanto um schwa, baseado no *na* do Kamurú:


1) carne: *li ~ ɾi 


Dz.: li, ri

Kp.: rì

Sp.: lí, rí

Km.: lì, rì

Kt.: ri

KX.: lí, rí

Pp.: rí


2) carne *ne ~ *nə


Dz.: ne, nâ

Kp.: nè, nae

Sp.: né, néi

Km.: nè, nà

Kt.: nó

KX.: né, nâ

Pp.: nê, nae



Autor da matéria: Ari Loussant 



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A PALAVRA 'SUBSTITUIR'


 Esse verbo surge somente em um caso dentro do Kipeá, que é na palavra *SINHÃ* 'vigário, sucessor', a palavra NHÃ é uma variante de NÃ, que surge no Dzubukuá no composto nanhe (pronunciado nã-he), significa "chefe, lider, senhor", portanto SI seria a palavra que modifica esse significado para "sucessor", a palavra mais adequada para isso seria o verbo "substituir, trocar".


 Devido a ausência de cognatos, é difícil dizer se era um *s ou um *c no Proto-Kariri, portanto irei reconstruir com as duas formas temporariamente, até um cognato ser descoberto, aqui está a palavra em cada dialeto:


Proto-Kariri *si ~ *ci 'substituir, trocar'


Dz.: hi, dhi

Kp.: sì

Sp.: sí

Km.: sì

Kt.: si, i

KX.: sí, hí, dhí

Pp.: si



Autor da matéria: Ari Loussant 



PARTÍCULA QUE DENOTA CONCEITOS ABSTRATOS PI


 A função desta particula é denotar substantivos abstratos, com o significado de estado de ser, por exemplo:


Dzubukuá: pilo "comunidade" ou "estado de ser de todos, comum"

Kipeá: pìdendènùkiè "intocabilidade" ou "estado de ser de não poder tocar"

Sapuyá: pì ekò "necessidade" ou "estado de ser de necessitar"

Kamurú: pì panà nì "desigualdade" ou "estado de ser de não semelhante"

Katembri: piphuyókyónu "incansabilidade" ou "estado de ser de não poder cansar"

Kariri-Xokó: pikonú "inflamabilidade" ou "estado de ser de poder queimar"

Pipipan: tonunupi "possibilidade" ou "estado de ser de possível"


 Esta partícula deriva do verbo PI 'estar', servirá como prefixo nos dialetos do norte (exceto no Pipipan, pois neste servirá como sufixo) e como uma preposição nos dialetos do sul.



Autor da matéria: Ari Loussant


PARTÍCULA QUE DENOTA AÇÃO, ATO OU PERFORMANCE DU


 Esta partícula tem o objetivo de denotar a ação do verbo ou substantivo do qual ela está modificando, ela tem três significados, o primário é de ação, que pode ser usado da seguinte maneira:


Kamurú: dù sawì "ação do vento, ventania" ou literalmente "ventação"

Kariri-Xokó: du-purú "ação das flores, florescência" ou literalmente "floração"

Pipipã: tuasatonu-du "ação de democracia, democratização"


 O segundo e o terceiro significado são parecidos, eles denotam ato ou performance, uma prática deliberada normalmente relativa à shows, peças teatrais ou qualquer outro tipo de expressão artística:


Kipeá: dùsaiprì "ato de saltar, performance que envolve saltar"

Sapuyá: dù ngù "ato de ser/estar equilibrado, performance que envolver ser/estar equilibrado"

Dzubukuá: dubû "ato de correr, performance que envolve correr"


Esta palavra deriva do verbo TU "praticar" por meio de vozeamento ou catitê e servirá no Dzubukuá, Kipeá, Kariri-Xokó e Katembri como um prefixo, no Sapuyá e no Kamurú como preposição e no Pipipã como sufixo:


Dz.: du-

Kp.: dù-

Sp.: dù

Km.: dù

Kt.: du-

KX.: du-

Pp.: -du



Autor da matéria: Ari Loussant