terça-feira, 11 de abril de 2023

OS QUATRO TIPOS DE 'DE' NAS LÍNGUAS KARIRI


 Como todos somos falantes de português, nos acostumamos com as regras e os padrões semânticos, morfológicos e sintáticos da língua lusitana, isso nos levou a perceber certas palavras de certas formas, uma delas é a palavra 'de'. Essa palavra carrega múltiplas funções ao mesmo tempo, coisa que as línguas Kariri não tinham nesse caso específico, na visão dos Kariri, 'de' tinha funções separadas dependendo de seu contexto, hoje irei ensinar a separar cada 'de' para facilitar na hora de traduzir os textos em alguma língua da família Kariri.


1º) 'de' de forma, material, estilo, modo


 O primeiro 'de' que irei ensinar é aquele que Mamiani e Nantes traduziram como DO, esse 'de' é usado especificamente para denotar o material do qual é feito o objeto mencionado, digamos por exemplo a frase portuguesa 'giz de cera', o 'de' dessa frase pode facilmente ser descrito mais detalhadamente com as seguintes construções: 'giz feito com cera', 'giz ao modo de cera', 'giz ao material de cera' ou 'giz a lá cera'. A palavra DO é o dativo das línguas Kariri e se traduz como 'a, para', não é o 'a' do artigo definido como em 'a casa' e sim no dativo que direciona alguém para algo como em 'eu vou à casa dele' que pode ser substituído por 'eu vou *para* a casa dele'. Voltando ao assunto, esse DO se limita a isso, vou dar alguns exemplos aqui para que fique mais compreensível:


Dzubukuá: tami do merata 'vara de ferro' literalmente 'vara ao ferro'

ami do peró 'comida a lá portuguesa' lit. 'comida à portuguesa'


Kipeá: runhù dò bunhà 'panela de barro', lit. 'panela ao barro'

erà dò wì 'casa de madeira' lit. 'casa à madeira'


Como vocês podem ver, essa é a função do primeiro 'de' das línguas da família Kariri, agora vamos para o segundo.


2º) 'de' de origem


 Este segundo foi descrito brevemente por Mamiani, ele é o BO, cujo ele traduziu com a partícula latina EX, como não falamos latim, irei traduzir da melhor forma que posso no português. Falando da forma mais básica, essa palavra se traduz como 'originado de', 'saído de', 'derivado de', ou seja, a palavra denota origem, não só de locais como "eu vim *de* São Paulo", mas também de pessoas "eu nasci *da* minha mãe" ou conceitos como "essa ideia veio *de* um sonho", basicamente você utilizará essa partícula quando você quer denotar que algo saiu, se originou ou derivou de alguma coisa, alguns exemplos aqui para ajudar são:


Sapuyá: sá lí ró nemeté *pó* bigéi neité 'essa ideia nasceu de um sonho'

ku théi tí *pó* Salvador téi Fortaleza 'viajaremos nós todos de Salvador para Fortaleza'


Kamurú: palè lùi amasà *pò* litsì 'a onça saiu da mata'

tá a palè malè *pò* a yarà, gi papanyì a petè 'saia logo de tua casa, estamos esperando por ti'


3º) 'de' de posse


 Esse não toma forma de partícula separada nas línguas Kariri e sim funciona como um prefixo nas palavras, ele pode tomar a forma de qualquer prefixo de qualquer declinação, só depende do contexto da frase e palavra em si, por exemplo:


Katembri: susimu Katembri 'cultura Katembri' lit. 'cultura dele, do povo Katembri'

suvariza Katembri 'língua Katembri' lit. 'língua dele, do povo Katembri'


Kariri-Xokó: sinhákrí ghikrakumá/ikrakumá kayahó 'morreu minha vaca ontem' (o pronome i- no KX foi reconstruído a partir de uma única frase que sobreviveu na língua Xokó e nesse caso funciona da mesma forma que ghi-)

sidendékrí João ghiyâradé 'João construiu nossa casa'



4º) 'de' de causa


 Por último, temos o 'de' de causa, ou em termos técnicos, o ergativo. O ergativo é o que denota causa nas línguas Kariri, ele quem marca o "dono" da ação em verbos passivos, ele é sempre obrigatório em verbos como PA 'ser morto', cujo nunca pode ser traduzido como 'matar' diretamente, portanto se eu quero dizer 'eu matei o mosquito', eu tenho que obrigatoriamente dizer 'o mosquito foi morto por causa de mim', o ergativo pode surgir de forma independente onde ele toma a forma de NO na maioria das línguas, em sua forma conjugada ele vira NA ou NHA, ele é sempre conjugado na primeira declinação de Mamiani, aqui estão alguns exemplos:


Pipipan: Pakri bani *nae* dupari 'foi morto o mocó por causa do caçador'

mýbae aera ro *aenae* kide ? 'foi tu que ergueu essa casa' ? lit.: 'foi erguida esta casa por causa de ti porventura ?'


Dzubukuá-Tuxá: dibokli aribé hiña 'eu lavei o prato' lit.: 'foi lavado o prato por mim'

inatedi natete iña 'ele/ela fará o trabalho' lit.: 'será feito o trabalho por causa dele/dela'



Autor da matéria: Ari Loussant 


segunda-feira, 10 de abril de 2023

A PALAVRA PARA PESSOA NAS LÍNGUAS KARIRI


 Tecnicamente existem duas palavras para pessoa na família Kariri, que podem ser reconstruídas como *tsâ e *bi(dzâ)gâ, cada língua adotou essas palavras com significados diferentes, cujo irei demonstrar agora.


 Uma das formas na qual a palavra *bi(dzâ)gâ foi adotada foi como um numeral, só que cada língua interpretou a palavra de forma diferente, as línguas do norte pegaram a variante *bigâ e adotaram ela como a palavra para o número 1, enquanto no sul, o Kamurú havia interpretado essa palavra como uma com significado múltiplo, portanto era a palavra deles para números de 4 para cima. 


 O porquê de haver essa diferença entre singular (1) e múltiplo (4, 5) pode ser justificada pelo cognato que encontramos no Dzubukuá: bidzoho, que tem três significados 'alguém, ninguém', ambos com significado singular e por último 'todos' com significado múltiplo, ou seja essa palavra carrega o significado ancestral da palavra para 1 que surge no Dzubukuá e no Kipeá como bihe, seu h teria o som mais próximo do g holândes como indicado pelo registro de Martius sobre o equivalente Kamurú que foi escrito como *ibicho*, com o *ch* alemão indicando a natureza velar dessa consoante.


 A outra palavra é tsâ, ela não surge de forma independente e sim em compostos, como nos pronomes independentes hi-ETÇÃ/i-DCE e ew-ATÇÃ/on-ADCE. A palavra pode ser prefixada com o prefixo de objetos animados *â-, formando *âtsâ. A palavra também surge no composto tsõho/dseho 'gente' que é formado a partir da palavra para pessoa tsõ/dse junto com ho que eu descobri a partir do Kamurú e do Sapuyá também ter o som do g holandês, já que surge como zocho no Kamurú (pronunciado tsogho), parece ser um cognato do HO de TSOHO 'muitos' do Kipeá, portanto temos *tsâ-gâ 'pessoa-muito' ou seja 'muitas pessoas, gente, população, povo'.


 Voltando para a primeira palavra, uma coisa que não discuti foi a formação desse composto *bi(dzâ)gâ, as primeiras duas sílabas *bidzâ surgem em outros compostos dentro das línguas Dzubukuá e Kipeá:


Dzubukuá:

bidzebro = rosto, cara

bidzecradda = aborrecer

bidzamu = pajé


Kipeá:

bidzancrò = rosto, cara

bidzoncrà = bocejar

bidzoncradà = ter nojo

bidzorà, bidzoratò = olhar pasmado

bidzamù = pajé



 A gigantesca maioria tem definições com ações que são feitas próximas do rosto, também não creio ser coincidência a palavra bi ser tão parecida com o verbo (u)bi 'ver, ouvir', portanto traduzo primeiramente bidzâ como 'rosto'. Outro aspecto importante é o cultural, parece que na visão dos Kariri, o rosto era visto como a definição primária para 'pessoa', como vemos em bidzoho 'alguém, ninguém, todos' do Dzubukuá e ibicho 'pessoa' do Kamurú, portanto adicionarei as seguintes definições para bi(dzâ)gâ 'rosto, pessoa, alguém, ninguém'.


 A terceira raiz que se encontra no composto bi(dzâ)gâ foi a que sobreviveu na maioria das palavras descendentes como *bihe* ou *ibicho*, como existe a diferença entre a vogal *e* e *o*, eu reconstruí com o schwa *â*. A raiz gâ de bi(dzâ)gâ é difícil de definir, eu primeiramente achava que se tratava da raiz gâ 'muitos' de iho 'muitos' do Dzubukuá e tsoho 'muitos' do Kipeá, mas isso só explicaria o significado múltiplo que vemos no Kamurú e no Dzubukuá, não explicaria o por que de *bihe* em ambas as línguas do norte serem singular em seus significados, o que podemos presumir é que a raiz que veio a ser ho, he e cho carrega por si só esses significados, portanto irei reconstruir ela com as definições que sobraram no Dzubukuá até que outros estudos esclareçam melhor sua definição, assim temos *gâ 'alguém, ninguém, todos'. Aqui estão as palavras reconstruídas para todas as línguas:


Proto-Kariri *â-tsâ ~ *tsâ 'pessoa'


Dz.: âtsâ, tsâ

Kp.: etçã, atçã, tçã

Sp.: eitséi, tséi

Km.: atsà, tsà

Kt.: ósó, só

KX.: âtsâ, tsâ

Pp.: etçã, atçã, tçã

Dz-Tx.: atse, tse


Proto-Kariri *bidzâ, *bigâ, *bi(dzâ)gâ 'pessoa, alguém, ninguém, todos'


Dz.: bidzâ, bighâ, bidzâghâ

Kp.: bidzõ, bihò, bidzõhò

Sp.: bitséi, bigéi, bitseigéi

Km.: bitsà, bigà, bitsagà

Kt.: bizó, bighó, bizóghó

KX.: bidzâ, bighâ, bidzâghâ

Pp.: bidzãe, bigae, bidzãegae

Dz-Tx.: bidze, bihoe, bidzoho



Autor da matéria: Ari Loussant 


sexta-feira, 7 de abril de 2023

A PALAVRA HANHO DO DZUBUKUÁ


 Essa palavra surge três vezes no Katecismo Indico de Bernardo de Nantes, em todos os casos tem o significado de 'reconciliar', ou seja 'fazer as pazes', irei mencionar esse significado logo logo, primeiro comecemos com alguns argumentos.


 A palavra HANHO surge consistentemente escrita dessa forma, sem alterações ou variantes em qualquer parte do catecismo, isso ajuda bastante a determinar sua pronúncia, irei explicar o porquê. A única outra palavra que eu conheço com uma estrutura similar à de HANHO é a palavra NANHE 'chefe, principal', cujo também, de forma consistente, surge escrita somente dessa forma, sem qualquer variação, isso indica que Nantes só tinha uma forma de representar os sons dessa palavra para o leitor e que ele não precisava alterar ela para indicar sua pronúncia, como no caso de ENUNHE que surge como ENUNHE e ENUNHIE com um I inserido no meio do NH e da vogal que vem depois, para indicar a natureza do NH.


 O que estou dizendo é que HANHO seria parte desse pequeno grupo de palavras que tem coincidentes encontros de NH, cujo não são pronunciados como o NH da palavra *manhã* por exemplo, e sim como um som nasal da vogal anterior, isso é um aspecto da ortografia desenvolvida por Nantes, cujo utilizava de -m e -n para indicar a nasalidade de uma vogal, sendo portanto melhor representado como HÃHO.


 Isso obviamente quebra qualquer conexão que HANHO poderia ter com NHAEHI 'fazer pazes' do Kipeá, já que o NHO não existe de verdade como NH, ele na verdade é apenas HO, portanto de onde vem essas duas raízes novas do Dzubukuá ? Qual é sua pronúncia real ? Os H são verdadeiros ou seriam G fracos ? Essas dúvidas me fizeram buscar em todos os documentos que tenho disponível de várias línguas indígenas do Brasil que podem estar distantemente conectadas com a família Kariri e infelizmente, minha pesquisa foi inconclusiva, eu não encontrei alguma raiz que tenha um significado próximo ou igual às duas que tem no composto HÃHO.



 Por conta dessa limitação nos dados, eu sou incapaz de reconstruir fielmente para o Proto-Kariri, então eu adotei um método de representar o som que não sei, para facilitar sua digitalização por todos, decidi que o som que eu não sei se é /g/ ou /h/ será representar por um H maiúsculo na reconstrução. Também não sei a qualidade real da vogal, se são realmente à e O, ou se são resultados de um schwa do Proto-Kariri, também não sei se a nasalização da primeira raiz é obrigatória, portanto irei reconstruir com as vogais atuais e a nasalização junto, mas colocarei ao lado uma variante com o símbolo de vogal desconhecida V.



 Antes de concluir, como não fui capaz de encontrar qualquer alteração no significado da palavra, creio que se trata mais uma vez de um composto de sinônimos, e devido à similaridade das duas sílabas, eu teorizo de que se trata da mesma raiz reduplicada, futuros estudos irão esclarecer melhor, aqui estão as reconstruções:


Proto-Kariri: *HãHo ~ HVHV


Dz.: hamho

Kp.: hãhò

Sp.: hanghó

Km.: hanghò

Kt.: hanho

KX.: hãhó

Pp.: hãhô

Dz-Tx.: hãho



Autor da matéria: Ari Loussant 


A PALAVRA PARA NOVO NAS LÍNGUAS DA FAMÍLIA KARIRI


 Há mais ou menos 1 ou 2 meses atrás, eu e Ricky descobrimos que a palavra CHE do Kipeá que foi traduzida somente como 'novamente, de novo' por Mamiani também tinha a função de 'novo', cujo muito provavelmente reflete sua função original antes de se tornar um sufixo:


Inióbæ ibuyẽwohóché dó ibuyẽwohó kenhé

"Deus tornará a formar um corpo novo dos ossos"


Recentemente decidi buscar no Dzubukuá para ver se ele possuía o mesmo sufixo, e descobri que sim, essa língua também possui a mesma palavra na forma de -kie:


Do coho nenewj buppi onadcedi mo abuangatekie

"Entaõ deveis fazer hum pequeno exame dos peccados, que novamente fizestes"


Com isso posso reconstruir essa palavra direto para o Proto-Kariri como *ce 'novo, de novo, novamente' e trazê-lo para as outras línguas nas seguintes formas:


Dz.: kye, -kye

Kp.: chè, -chè

Sp.: cé, -cé

Km.: cè, -cè

Kt.: tshe, -tshe

KX.: ché, -ché

Pp.: chê, -chê

Dz-Tx: kye, -kye



Autor da matéria: Ari Loussant e Ricky Seabra


quarta-feira, 5 de abril de 2023

NOVO MÉTODO DE CRIAÇÃO DE PALAVRAS


Alguns neologismos que pensei esta semana e o desenvolvimento de um novo método de criação de palavras


No dia 11 do mês passado acabei ficando doente e só melhorei a partir do dia 20, desde então fiquei sem ideias para publicações, então decidi refletir um pouco sobre como eu venho criando as novas palavras para cada língua da família.


 Eu, Suã, sou uma pessoa muito técnica, cresci em um ambiente que me providenciou com mais visões científicas do que espirituais sobre o mundo, por conta disso, meus neologismos refletem minha visão de mundo e acabam, eu creio, não refletindo o pensamento do povo Kariri, portanto eu decidi tomar alguns dias para refletir como eu faria os neologismos a partir de hoje.


 Obviamente nem todos precisam de uma explicação poética ou esotérica, entre os próprios Kipeá alguns objetos eram definidos de forma a partir de sua função direta como sidadite que usa o verbo dadi 'estar assentado' para formar o particípio que significa algo em torno de si-dadi-te 'ela, a coisa de assentar-se', ou seja 'cadeira, trono (no contexto do catecismo)' e qualquer outro objeto que possa ser usado para sentar. Porém certamente objetos da natureza podem ser definidos de forma melhor que maçã = fruta-vermelha ou laranja = fruta-laranja ou gato = animal que mia e cachorro = animal que late.


 Portanto hoje como treino para mim mesmo, eu decidi conectar as aranhas à internet. Comecemos com a tradução de aranha, já que este termo não nos foi dado nem Nantes ou por Mamiani, se eu seguisse a lógica mais básica a chamaria de 'animal de oito pernas' e concluiria ali mesmo, no entanto eu quero algo menos técnico e que não seja muito complicado ou com muitas sílabas, portanto usarei um verbo que descobri junto com Ricky Seabra enquanto pesquisávamos o catecismo de Mamiani, que é TERI 'fiar', este composto entre TE e RI significa 'fiar' ou em outros termos 'tecer', portanto temos a palavra perfeita para definir a aranha, das quais muitas espécies são especialistas em tecer as mais complexas teias para capturar suas presas, podemos até mesmo chamá-las de mestres nesta arte, então por que não dar esse título para elas ? Sugiro a nomeação das aranhas como 'senhoras da tecelagem' SETERI e como TE e RI são sinônimos, podemos só dizer SETE ou SERI para encurtar. Aqui estão as formas que essa palavra tomaria em cada língua, levando em consideração algumas coisas na hora de reconstruir:


Dz.: heteri, heteli, hete, heri, heli

Kp.: seterì, setè, serì

Sp.: seterí, setelí, seté, serí, selí

Km.: siterì, sitelì, sitè, sirì, silì

Kt.: eteri, ete, eri

KX.: seterí, setelí, seté, serí, selí

Pp.: sêtêri, sêtê, sêri

Dz-Tx.: heteri, heteli, hete, heri, heli


 Com isso temos um neologismo para este animal, mas como falei lá em cima, muitas delas são especialistas em tecer teias complexas, por que não desenvolver uma palavra para 'teia' também ? Usaremos a palavra HO 'fio' para criar este conceito, juntemos ela com SERI e suas variantes:


Dz.: herihâ, helihâ

Kp.: serihò

Sp.: serihó, selihó

Km.: sirifà, silifà

Kt.: erihó

KX.: serihó, selihó

Pp.: sêrihô

Dz-Tx: heriho, heliho


 Terminamos de traduzir dois conceitos referentes à aranha, agora vamos para a internet, como podemos conectar estes palavras ? Simples, uma teia de uma aranha pode ser descrita como um conexão sistemática de várias linhas, para denotar isso no sentido tecnológico, usemos BO 'relâmpago' para denotar 'elétrico, eletrônico', criando SERIHOBO 'teia eletrônica', aqui estão suas variantes:


Dz.: herihâbâ, helihâbâ

Kp.: serihobò

Sp.: serihopéi, selihopéi

Km.: sirifapà, silifapà

Kt.: erihónaré

KX.: serihobâ, selihobâ

Pp.: sêrihôbae

Dz-Tx: herihoboe, helihoboe


Para não concluir só com estes três, também gostaria de sugerir um neologismo para 'site' ou 'sítio eletrônico', eu ia usar a palavra 'lugar' para isso, mas eu decidi continuar com a analogia das aranhas, quando uma aranha captura várias presas com sua teia, ela a partir daí tem várias opções de refeição, certo ? Então por que não usar inseto para denotar a palavra para 'site' ? É claro, não temos essa palavra em lugar algum, mas por sorte, Mamiani registrou uma única palavra referente à um inseto, o DU 'piolho'. Com esse registro podemos trabalhar com essa palavra de várias formas, a principal nesse caso seria ablaut, que falando da forma mais simplificada possível, é um termo técnico para dizer 'eu mudei a vogal porque eu quis'. Vamos fazer isso, peguemos DU e mudemos sua vogal para qualquer uma das que temos disponíveis em cada língua, DA, DE, DÉ, DI, DU, DO, DÓ e etc. Para não complicar, vamos com DI e ponhamos o novo significado de 'inseto', portanto temos DI 'inseto' que junto com SERIHOBO forma SERIHOBODI 'inseto da teia eletrônica' ou seja 'sítio eletrônico', aqui estão as variantes:


Dz.: herihobâdi, helihobâdi

Kp.: serihobodì

Sp.: serihopeití, selihopeití

Km.: sirifapatì, silifapatì

Kt.: erihónarédi

KX.: serihobâdi, selihobâdi

Pp.: sêrihôbaedi

Dz-Tx.: herihoboedi, helihoboedi


 Com isso concluo os neologismos de hoje, logo irei publicar mais, passarei os próximos dias estudando, então a frequência de postagem talvez continue um pouco baixa, mas irei aumentar conforme o tempo for passando.


Autor da matéria: Ari Loussant 

sexta-feira, 31 de março de 2023

ORIGEM NO MARACAIBO


        Nhenety mencionou a história da origem dos Kariri, que diziam se originar de um grande lago ao norte, também menciona que estudiosos acreditam que os Kariri se originaram ou do Amazonas ou do Lago Maracaibo da Venezuela, Nhenety gostou do Maracaibo e suspeita que este nome seja Kariri, portanto ele me pediu para checar a etimologia da palavra.


 Após alguns minutos de pesquisa notei algumas coisas sobre o nome e o local em si, primeiro começando sobre o local, a Wikipédia diz que aquela baía foi habitada tanto por indígenas aruaques quanto caribes, assim estabelecendo os grupos linguísticos regionais e possibilitando um estudo mais aprofundado sobre o nome deste lugar.


 A Wikipédia inglesa propõe duas etimologias possíveis para a cidade de Maracaibo, a primeira, traduzindo livremente seria mais ou menos assim: "É dito que o nome Maracaibo vem de um bravo cacique (chefe indígena) Mara, um jovem nativo cujo bravamente resistiu aos Espanhóis e morreu lutando contra eles. A lenda diz que quando Mara pereceu, os Coquivacoas gritaram "Mara kayó" (Mara caiu!), assim originando o nome da cidade, no entanto seria estranho os indígenas terem gritado tal frase em espanhol", eu particularmente, assim como o escritor deste texto, também duvido dessa etimologia, já que realmente seria estranho os indígenas terem falado em uma língua estrangeira para eles tal frase, o que nos leva para a segunda etimologia.


 A segunda etimologia proposta na Wikipédia e, de acordo com ela, por historiadores, seria a de que o nome deriva de uma língua indígena (sem mencionar qual) que dizia Maara-iwo que é traduzido como "local onde serpentes são abundante".


 Valdivino indígena Kariú Kariri do Ceará menciona a similaridades deste nome com o nome de uma Encantada do povo Kariú, também chamada Maara, cujo tem a cabeça de mulher e o corpo de uma cobra, propondo a tradução de Maara-iwo como "Caminho de Maara". Eu e Nhenety concordamos que foi um maravilhoso achado a conexão entre Maara de Maracaibo e Maara da Encantada Kariú, uma distância de quase 4000km, mas uma proximidade histórica e cultural gigante.




Autores Ari Loussant e Valdivino Kariú Kariri 



quinta-feira, 9 de março de 2023

O SIGNIFICADO DE TORÀ 'CORTESIA COM O PÉ'


 Ao olhar para essa palavra é fácil reconhecer um dos verbos que compõem ela, sendo este *TO, que se assemelhar ao TO de TODÌ 'estar de pé' ou no inglês 'to stand', sendo este provavelmente quem está carregando o significado de pé em cortesia *com o pé*, já RÀ é uma ação mais complicada de definir, existem várias definições para cortesia, todas centradas na ideia de um gesto/ação educada para outra pessoa.


 Nós temos que tomar cuidado com as traduções de Mamiani, não podemos presumir que uma certa palavra teria a mesma conotação na língua séculos depois, um exemplo disso é a outra palavra que ele define como 'fazer cortesia' que é DACRÙ, Mamiani não usa essa palavra em lugar algum de seu catecismo, não nos dando a chance de saber qual seria seu uso, porém o Nantes usa seu cognato *daklo* várias vezes durante seu catecismo e demonstra para nós que o significado de 'fazer cortesia' estava mais em volta de 'adornar, decorar, assear' do que 'gesticular educadamente'.


 As únicas palavras que encontrei que possivelmente podem ser cognatos distantes são o Boróro reru 'saltar' e o Proto-Jê-Meridional *(ɾɛ̃ɡ)ɾɛ̃ɡ 'saltar, pular' (este é um pouco mais duvidoso, estou ciente dos processos de nasalização do PJM, mas não o suficiente para dizer se isso é uma mudança regular de ɛ > ɛ̃ ou se a palavra já tinha o som ɛ̃, que é um é aberto nasalizado), se elas forem cognatos podemos definir que no passado RÀ teria tido o significado de 'pular, saltar'. Eu digo no passado, pois não me resta dúvidas de que a palavra já tinha evoluído de seu significado de 'saltos aleatórios' para 'saltos coordenados', ou seja 'dança, dançar', se este não fosse o caso, não teríamos visto Mamiani definir salto como SAIPRÌ e Nantes como HOPELE, teríamos visto RÀ novamente (este argumento é um no qual eu irei voltar outro dia, pois eu suspeito do LE de HOPELE, apesar de parecer somente com a palavra PELE 'sair', ainda irei estudar mais a fundo para saber qual é seu significado), outro argumento que apoia essa ideia é o fato de o próprio autor ter definido o gesto como algo de cortesia, o que implica mais ainda em coordenação e organização proposital do gesto.


 Eu ia reconstruir esse termo como *ra 'dança, dançar', porém devido à palavra TORÉ que está bem espalhada pelo Nordeste e sua semelhança com TORÀ, eu devo reconstruir de duas formas *ra ~ *râ 'dança, dançar' para compensar a mudança das vogais. Também para os dialetos que permitem e por precaução, irei reconstruir versões com a letra l no começo, pois baseado no landaeh do Kamurú versus o anrande do Dzubukuá e o rende do Kipeá, é difícil prever quando uma palavra será lateralizada (ou seja, passará de r > l) dentro de cada língua, isso também pode ajudar na criação de novas palavras, como 'ritual' por exemplo.


Proto-Kariri *ra ~ *râ 'dança, dançar'


Dz.: ra, râ, la, lâ

Kp.: rà

Sp.: rá, réi, lá, léi

Km.: rà, là

Kt.: ra, ró

KX.: rá, râ, lá, lâ

Pp.: rá

DT (Dzubukuá-Tuxá).: ra, roe, la, loe



Autor da matéria: Ari Loussant